Histórias sobre assassinos são complicadas de se retratar. Por isso, para contá-las, ninguém melhor do que quem conviveu com os criminosos. É o caso de Meu Amigo Dahmer, graphic novel do norte-americano Derf Backderf, lançada no Brasil recentemente pela DarkSide, editora dedicada ao terror.

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O livro é um relato do autor sobre a adolescência do seu famoso colega de ensino médio, Jeffrey Dahmer, condenado em 1992 pelo assassinato de 15 homens e garotos entre 1978 e 1991. Acredita-se, porém, que o número real de mortes seja ainda maior. Dahmer, cujos crimes envolviam prática de estupro, necrofilia e canibalismo, foi morto em 1994 por um colega de prisão.

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Em seus desenhos, o autor mostra o retrato de como foi crescer nos EUA nos anos 1970 – e de como jovens eram negligenciados, a ponto de um serial killer nunca ter chamado a atenção dos adultos. “Certamente, existem lições em Meu Amigo Dahmer, mas não acho que os EUA estão interessados em aprendê-las, infelizmente”, diz Backderf em entrevista ao jornal “O Estado de S. Paulo”, por e-mail. “Mas vale trazer alguns debates”, completa o quadrinista, ao relembrar casos mais recentes de tragédias envolvendo jovens em escolas do país.

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Por ser jornalista, Backderf teve um cuidado especial para produzir Meu Amigo Dahmer. Além das suas próprias lembranças, Derf conversou com amigos para relembrar acontecimentos e consultou centenas de arquivos oficiais sobre o caso, assim como publicações e entrevistas do serial killer e seus familiares. O autor só desenhava uma cena se ela fosse confirmada por pelo menos duas fontes diferentes.

Toda a pesquisa fez o processo de produção do livro, que começou após a morte do assassino, durar 20 anos. “Pesquisei por uns 18 anos, enquanto trabalhava com outras coisas, até finalmente sentar para começar a desenhar”, relembra.

Além do cuidado com as fontes, Backderf precisou se precaver para não romantizar o jovem Dahmer, que até hoje, estranhamente, tem dezenas de fãs. O livro termina com o primeiro assassinato. No prefácio, o autor esclarece que é ali que se encerra qualquer simpatia pelo jovem. “Ele escolheu se tornar um assassino e levar infelicidade a incontáveis pessoas”, escreve.

“Há muitos fãs de Dahmer por aí. Curiosamente, de modo geral, são jovens mulheres”, explica. “Eu mostro Dahmer como um jovem que sucumbiu à loucura e perdeu sua humanidade, até que não houvesse nada além do monstro.” Tal forma de relatar a história, segundo o quadrinista, não agradou aos fãs do serial killer. “Eles não ficaram muito felizes com a história porque não se encaixa em suas fantasias”, acredita. “Mas é estranho, eu não entendo”, diz sobre o fanatismo.

Quem também não ficou muito contente com o livro, de acordo com Derf, foram os diretores atuais da escola em que eles estudaram e onde se passa boa parte da história, o Colégio Revere, na pequena cidade de Bath, em Ohio. “A escola ainda tem alguns problemas, é conhecida como ‘Escola Dahmer’. Eu não sou o egresso favorito deles”, brinca. Bath, porém, seguiu em frente. Poucos são os efeitos da história de Dahmer na cidade. “Foi há muito tempo, a maior parte dos adultos da época já se foi.”

A história de Backderf, agora, vai ganhar os cinemas, com um filme dirigido por Marc Meyers e rodado na própria Bath, na casa real em que viveu Dahmer. No papel principal, o astro da Disney Ross Lynch, que surpreendeu pela semelhança. “Sentei com Lynch para conversar e tive que pedir para ele tirar os óculos, estava me assustando.” Derf só conseguiu ficar no set do filme por um dia. “Era demais para lidar.”

MEU AMIGO DAHMER

Autor: Derf Backderf

Editora: DarkSide (288 páginas, R$ 59)

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.