O astro, entre seus companheiros
de Liga: fogueira de vaidades.

São Paulo

– Você já deve ter ouvido dizer, com certeza, que A Liga Extraordinária, que estréia hoje nos cinemas, só não é pior por causa de Sean Connery, que faz o aventureiro Allan Quatermain, o líder de super-heróis da organização a que se refere o título. E se for justamente o contrário: A Liga Extraordinária não é melhor por causa de Sean Connery?

Não que o carismático ex-James Bond, intérprete de grandes papéis numa carreira que já se estende por quase 50 anos, tenha virado, aos 73, um mau ator. O problema dele é o mesmo de Al Pacino, Dustin Hoffman, Robert De Niro. São astros. Têm controle da produção, demitem diretores que não se conformam com seus caprichos. E eles acham que sabem tudo. Na verdade, preocupam-se mais com suas imagens.

Connery foi produtor-executivo de A Liga Extraordinária. Infernizou a vida de Stephen Norrington, mas não assumiu a realização porque aí seria mais arriscado. Do jeito que está, se desse certo, seria pela interferência dele. Se desse errado, por culpa do diretor. Deu médio.

A Liga Extraordinária não é o pior filme do mundo. Só não é bom. A Graphic Novel de Alan Moore possui a fama, certamente merecida, de ser um primor de inteligência e brilho visual. Poderia ter dado origem a um filme superior. Mas é Hollywood e o filme foi formatado para Connery. Ao longo dos anos, ele cristalizou de tal maneira determinadas características -o humor blasé, por exemplo -que não consegue mais se distanciar do próprio modelo.

As recentes aventuras com super-heroínas, a bem da verdade, até que são menos aborrecidas. Há em Lara Croft e nas Panteras mais vitalidade, e também uma vontade declarada de brincar com os códigos estabelecidos por décadas de supremacia masculina.

A trama: A Liga Extraordinária começa em 1899. A Europa e o mundo estão ingressando no século XX e, inesperadamente, um malfeitor (quem?) começa a atacar com maquinário pesado em diferentes pontos, lançando país contra país. O mundo chega à beira da guerra, e é aí que um certo M resolve formar a liga. O primeiro a ser recrutado, na África, é Allan Quatermain, personagem da ficção vitoriana cujo nome pode ser ligado a numerosos filmes, entre eles o cult de ficção científica Uma Sepultura para a Eternidade, de Roy Ward Baker. A partir dele, forma-se um grupo de sete (oito?) figuras especiais.

Piada

Não deixa de ser uma piada a existência desse M, reforçada pela presença de Connery. M existe na Graphic Novel, mas é o nome do chefe de 007 no serviço secreto inglês. No tempo em que o astro de A Liga Extraordinária fazia James Bond, o papel era de Bernard Lee. Em torno de Allan Quatermain surgem os demais personagens, todos emprestados à ficção: o agente americano Tom Sawyer, o dândi Dorian Gray, a vampira Mina Harker, o Capitão Nemo, Rodney Skinner (o Homem Invisível) e a dupla Dr. Jekyll/Mr. Hyde.

A idéia de Alan Moore é engenhosa. Fica um pouco menos na adaptação cinematográfica. As primeiras cenas são o que se espera de um blockbuster: muitas explosões, aquela orgia de destruição que você conhece, tudo entremeado por diálogos cuja função é introduzir os personagens. Formada a liga e iniciada a busca pelo vilão, voltam as cenas de explosões e destruição, mais espetaculares ainda. E nem causa muita emoção saber que, no final, há um traidor no grupo e o gênio do mal é… Veja A Liga para descobrir.