Alguns acontecimentos recentes acenderam o alerta na Globo. Primeiro foi o SBT, que obteve média de 17 pontos reprisando Xica da Silva, produzida pela Manchete. Depois foi o sucesso da nova versão de A Escrava Isaura, na Record. Atualmente tem a Band com reprise de Mandacaru, que também era da Manchete, e que vem conseguindo 5 pontos. Tudo isso e mais as dificuldades que a emissora vem enfrentando com a novela Prova de Amor, na Record fizeram com que a emissora voltasse os olhos para um velho trauma: Pantanal. Por isso mesmo, a Globo tratou de comprar do autor Benedito Ruy Barbosa os direitos sobre a obra.

?Como detentora dos direitos, a Globo pode regravá-la a qualquer momento. Por enquanto, não há nada definido?, desconversa Luiz Erlanger, diretor da Central Globo de Comunicação. Ou seja: a Globo evitou que outra emissora pudesse reconstruir o velho pesadelo, embora não saiba exatamente o que fazer com a obra. Exibida entre março e dezembro de 1990, Pantanal foi um verdadeiro fenômeno de audiência, na reta final teve médias superiores a 40 pontos. A novela marcou época na teledramaturgia nacional também pelo inovador estilo de produção, com grande números de cenas gravadas fora de estúdios. Apesar do sucesso da versão original, Jayme Monjardim, diretor Artístico da Manchete na época, não acredita que a Globo fará qualquer projeto baseado na obra. ?Um remake de Pantanal corre o risco de perder o encanto que existia naquele momento?, rejeita o diretor, atualmente na Globo.

A possível releitura de Pantanal divide opiniões entre antigos membros da equipe que gravou a novela na Manchete. Para a atriz Cássia Kiss, que interpretou a Maria Marruá na primeira fase da trama, seria muito difícil reproduzir o efeito da versão exibida há quase 16 anos.

?É como regravar Roque Santeiro. Como vai se repetir o que a Regina Duarte e o Lima Duarte fizeram??, questiona a atriz. Para Cássia, o inovador da novela foi o fato de toda a história ter sido gravada em um local completamente selvagem. Sem essa novidade, acredita a atriz, Pantanal não teria sido tão marcante. ?Foi um processo jamais vivido na televisão?, valoriza.

Autor da obra, Benedito Ruy Barbosa diverge dos companheiros de Pantanal. Para ele, é possível regravar a novela e torná-la ainda mais atraente ao público com os aparatos tecnológicos existentes hoje. ?A produção tinha suas limitações. Muita coisa poderia ser mais bem -aproveitada, como a captação de imagens nos rios?, arrisca. Mesmo com equipamentos limitados, Jayme Monjardim lembra que o resultado de Pantanal deu à Manchete, na época, o primeiro lugar na audiência. ?O Pantanal era uma região pouco conhecida no Brasil. Além disso, o horário também era diferente. Tudo contribuiu?, avalia o diretor.

A trama de Benedito Ruy Barbosa conta a história do fazendeiro José Leôncio, que viaja para o Rio de Janeiro e conhece a jovem Madeleine. A moça fica grávida e vai morar com ele no Pantanal. Logo após o nascimento do filho, ela abandona o marido e volta para a cidade. Amargurado, Zé Leônico passa a viver com sua empregada, Filó, que lhe dá outro filho. Vinte anos depois, Joventino filho de Zé Leôncio com Madeleine vai ao Pantanal para encontrar o pai, mas o choque cultural é tão grande que o rapaz acaba renegado pelo patriarca.

Oficialmente, a Globo diz que comprou os direitos de Pantanal porque seu autor, Benedito Ruy Barbosa, teria a intenção de usar algumas passagens e personagens da trama em sua próxima novela que marcaria seu retorno ao horário das oito. Jayme Monjardim não vê problemas no fato de a emissora ter comprado os direitos da obra apenas para assegurar-se de que nenhuma concorrente irá regravá-la. ?A Globo adquirir Pantanal para não ser exibida, tudo bem. Faz parte de uma estratégia da emissora como empresa?, afirma Jayme. Já Benedito acredita que a emissora vai refazer a história e levá-la ao ar. ?A Globo comprou para regravar a trama?, assegura.