Em 1985, o físico de formação Wagner Lungov, hoje com 60 anos, era um jovem fotógrafo amador de 25 anos que ganhava a vida como professor de matemática, em São Paulo. Em janeiro daquele ano, durante uma semana, deixou as fórmulas matemáticas e a família para se tornar testemunha ocular da história do rock no Brasil. Ele fotografou com sua pequena e compacta Olympus OM1 e uma lente 135 mm alguns dos principais rock stars que o País já viu.

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Tudo começou quando na época os jornais começaram a noticiar a vinda ao Rio de um grande festival de música, o Rock in Rio. Fascinado por rock e apaixonado por fotografia, Lungov botou na cabeça que precisava estar presente e não bastava estar lá sem a sua câmera. Mas como? Ele não era jornalista nem repórter-fotográfico e arrumar credencial era feito quase impossível para um professor de matemática.
Lembrou de uma amiga cujo pai era dono de uma editora. Nada relacionado ao universo da música, muito menos do rock, mas era a única solução para conseguir a tão almejada credencial, passaporte para decibéis incontroláveis no ouvido e performances nunca vistas em terras brasileiras.

Naqueles tempos sem e-mail a solicitação foi feita via carta. As semanas passavam e nada de a resposta chegar. Nem sim, nem não, só a indiferença que fazia com que ele se sentisse como um “penetra”. Até que a paciência de Lungov se esgotou. Passou a ligar para a produção do evento, número que conseguiu na base de muita pesquisa.
Certo dia, do outro lado da linha uma senhora com a voz cansada pergunta o nome do professor. “Wagner Lungov!” “Humm, acho que vi uma credencial esses dias com esse nome, venha que ela está feita sim.” Foi a senha para Lungov disparar para a rodoviária. Na mochila, uma muda de roupa, a câmera com uma única lente, 10 filmes coloridos e 2 preto e branco. Um total de 432 chapas para 10 noites de show.

“Tive sorte, pois na época minha irmã morava no Rio e fiquei na casa dela. Era um duro.” Quando foi retirar sua credencial, surpresa, não estava credenciado. “Protestei, disse que havia telefonado antes e tinha saído de São Paulo até o Rio para fotografar os shows.” Só depois de muita confusão conseguiu a credencial.

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Na primeira noite de show, encontrou repórteres-fotográficos de grandes veículos de reportagem nacionais e internacionais às dúzias, munidos com as pesadas, potentes e gigantescas câmeras profissionais Nikon. “Minha câmera era até boa, mas na época a Olympus era tida como marca para amadores”, lembra.

Os filmes coloridos eram revelados no dia seguinte ao show e ele foi comparando o resultado dos seus cliques com o que era publicado na imprensa. “Minhas fotos não ficavam devendo nada para o resto da turma.”

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No Rock in Rio 1985, a banda mais cobiçada pelos repórteres-fotográficos era o grupo de rock progressivo Yes. Wagner não só fez essas fotos como também registrou o Queen e o insubstituível Freddie Mercury, o AC/DC com seu incendiário guitarrista Angus Young, o vocalista Ozzy Osbourne e a cantora Nina Hagen. “Logo de cara me chamou a atenção o profissionalismo das performances.” Muito diferente de tudo que tinha visto no Brasil. “Os shows eram coreografados. Fotografei as duas apresentações da banda Scorpions e os movimentos eram exatamente iguais”, lembra.

Voltando para São Paulo, ao fim do Rock in Rio, revelou os últimos filmes que faltavam. Wagner Lungov têm especial carinho por uma imagem do Ozzy com a camisa do Flamengo, em preto e branco, olhar decidido em direção ao fotógrafo. “Gosto dela porque parece que ele está olhando mesmo para mim, mas sei que eles eram cheios de técnicas, de mirar o olhar para a massa de fotógrafos.”
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.