E os latinos vieram para arrebentar no fim de semana aqui no Festival de Berlim. No sábado, 7, o guatelmateco Jayro Bustasmente fez história colocando seu país no mapa da cinefilia mundial com Ixcanul (Vulcão). No domingo, 8, foi a vez do chileno Patricio Guzmán, que dividiu as galas da noite com o norte-americano Terrence Malick. Malick não estava presente, e se estava manteve-se incógnito na plateia, enquanto era apresentado seu novo filme, Knight of Cups. Guzmán veio e foi intensamente aplaudido. Até na sessão de imprensa, na noite anterior, El Botón de Nácar havia sido bastante aplaudido pelos jornalistas e críticos de cinema que, até aqui, têm sido parcimoniosos em suas reações.

É muito bom constatar que o cinema não perdeu sua capacidade de nos surpreender, e maravilhar. Guzmán conta uma história da água. Reflete como a vida na Terra veio dela e como no universo existe um quasar nebuloso que carrega um oceano imenso, 120 milhões de vezes maior que toda a água na Terra. Ele conta histórias da ligação dos indígenas chilenos com a água, lembra que o país é uma estreita faixa de terras limitada de um lado pelo Pacífico. Tudo isso ele vai contando numa linguagem poética que desarma o espectador. E aí chegamos ao horror. No fundo do mar, veio dar nas costas o cadáver de uma mulher com sinais de violência extrema. Foi uma das vítimas da ditadura do famigerado general Augusto Pinochet. O horror, o horror. Entre 1200 e 1400 pessoas foram lançadas ao mar pelos helicópteros do Exército chileno, como parte da operação limpeza para se livrar dos cadáveres de presos políticos. Volta o drama dos desaparecidos, que Guzmán já focara em A Nostalgia da Luz, de 2010.

Terá o júri presidido por Darren Aronofsky coragem de outorgar o Urso de Ouro a um documentário como El Botón de Nácar?

Ainda é cedo para arriscar prognósticos. Ainda temos uma semana inteira de festival antes que, no sábado, dia 15, sejam anunciadas as decisões do júri. O importante é que o Chile está na lista, e com condições de ganhar.

Haverá outro concorrente chileno, El Club, de Pablo Larraín, o diretor de No. Pode ser que venha mais coisa boa por aí. A América Latina, de qualquer maneira, está bem representada, e não apenas pelos chilenos da competição. O Brasil tem bons filmes em diferentes seções do festival, e a Guatemala surpreendeu com o longa de Bustamente.

O diretor de 37 anos estudou roteiro em Roma e direção em Paris. Voltou ao seu país, e à região em que nasceu, para fazer Ixcanul. A Guatemala tem mais da metade de sua população formada por indígenas que descendem dos maias. O filme se passa nesse universo. Conta a história de mãe e filha numa plantação de café. A mãe faz oferendas aos deuses – e ao vulcão que domina a paisagem – para que a filha faça um bom casamento e seja fértil. Prometida ao filho do dono das terras, a garota engravida de um trabalhador sazonal que foge para os EUA.

Posto que não é possível esconder a barriga que se avoluma, o casamento é desfeito, a família é ameaçada de expulsão. A garota tenta uma medida extrema, que é quase um suicídio. Vai parar no hospital. A trama toma outro rumo. O que ocorreu com o bebê? Como a família só fala maia, é fácil de ser enganada, mas exatamente por quem?

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.