Há um ciclo de cinema argentino no Caixa Belas Artes e dentro dele há uma atração especial – Elsa e Fred, de Marcos Carnevale, com China Zorrilla e Manuel Alexandre. Para o espectador brasileiro que já viu o filme, China Zorrilla é uma atriz exuberante que transmite a vitalidade da octogenária Elsa. Desde a Maude de Ruth Gordon em Deixem-nos Viver, de Hal Ahby, não se via uma velhinha tão sacudida na tela. Mesmo impressionado com ela, o público talvez não saiba que China foi uma verdadeira instituição do cinema argentino. Nascida no Uruguai e tendo vivido sempre no eixo Montevidéu/Buenos Aires, foi uma estrela no teatro, no cinema e na TV. Era tão popular que, em 2011, o Correio uruguaio lançou uma coleção de selos com sua efígie. Morreu há pouco, em 17 de setembro, aos 92 anos, e seu desaparecimento adquiriu contornos de tragédia nacional em ambos os países.

Marcos Carnevale é um diretor muito interessante. Gosta de dialogar com os clássicos e, em Elsa e Fred, elege ninguém menos que Federico Fellini. O título remete, obviamente, a Ginger e Fred, do autor italiano, mas o filme que está em pauta é um clássico maior ainda – A Doce Vida. O viúvo Fred muda-se para o prédio de Elsa. Abalado pela perda da mulher e refém das vontades da filha, ele marca tempo na vida. Elsa irrompe como um furacão em sua existência pacata. Ela tem um sonho. Quer ir a Roma, para visitar a Fontana di Trevi, cenário de uma cena emblemática de A Doce Vida, aquela em que Anita Ekberg, vestida de padre estilizado, entra na fonte e troca um beijo com o jornalista Marcello Rubini (Marcello Matroianni). Na verdade, o beijo é interrompido pela água, que para de jorrar, e a dupla, meio ridícula, é vista à distância por um observador numa bicicleta.

Conseguirá Fred realizar o sonho de Elsa? Marcos Carnevale gosta de propor essas questões que podem nem ser transcendentais, mas se tornam.

Depois de Elsa e Fred ele fez Coração de Leão, sobre mulher insatisfeita que precisa vencer o próprio preconceito para poder ser feliz com um anão. Alguns críticos não entenderam nada e disseram que Carnevale, querendo desmontar o preconceito, antes o afirmava. O anão de seu filme é rico e transforma a vida da protagonista numa festa sem fim. Os textos seguiam a mesma linha ‘crítica’ – assim, até eu… Mas era dessa maneira que o diretor expunha o preconceito. Ao fazer com que seu anão fosse interpretado por um ator charmoso de 2 m de altura, comprimido digitalmente nos efeitos especiais, Carnevale deixava o espectador mais à vontade para aceitar sua ‘fantasia’.

Elsa e Fred não é só um filme de cinéfilo. Carnevale o enriquece com observações humanas e sociais pertinentes sobre a questão da terceira idade. China Zorrilla é magnífica. E Hollywood, que não dorme no ponto, se apropriou das história. Foi feita uma versão norte-americana com Shirley MacLaine e Christopher Plummer, uma dupla certamente mais conhecida do público brasileiro. Esse outro Elsa e Fred passou no Festival do Rio e estreia em breve nos cinemas brasileiros. O original argentino, que você pode rever na quarta, pode até ser melhor, mas a versão em língua inglesa tem direção de Michael Radford – de O Carteiro e o Poeta – e não é fraca, não.