Cena de “Segundas-feiras ao Sol”:
atuação brilhante de Javie5r Bardem.

Gramado

– Há algo de Meus Caros Amigos e Quinteto Irreverente, de Mario Monicelli – e o próprio diretor considera o primeiro um filme de Pietro Germi, que escreveu o roteiro e planejou a produção – em Lunes al Sol. Há um pouco de Conta Comigo, de Rob Reiner, em De Passagem. Foram os dois longas de ficção que abriram o 31.º Festival de Gramado, na noite de segunda.

São filmes sobre amizade e morte. O primeiro é muito bom. Será distribuído no Brasil pela Pandora, com o título de Segundas-feiras ao Sol. O segundo não é tão bom, mas seria injusto dizer que o diretor estreante Ricardo Elias fica só nas boas intenções. Há coisas muito bonitas, muito sensíveis em seu filme. E ambos são tristes.

Como sempre, o Festival de Gramado submete o público a um verdadeiro massacre. Foram três curtas e dois longas, com as respectivas equipes subindo ao palco para dizer duas ou três coisas sobre o cinema de resistência que se faz no Brasil e nos demais países ibero-americanos, não se podendo esquecer que Gramado é um Festival de Cinema Brasileiro e Latino.

Segundas-feiras ao Sol adquiriu notoriedade quando foi indicado pela Espanha para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Todo mundo imaginava que os espanhóis iam mandar Fale com Ela, de Pedro Almodóvar (e talvez bisar o prêmio que ele recebeu por Tudo sobre Minha Mãe). Segundas… não ganhou a indicação, mas isso contribuiu para projetar o filme de Fernando León Aranoa fora da Espanha.

O tema, ou os temas, podem ser amor, amizade e morte, mas a história trata de desemprego. Um grupo de amigos desempregados se reúne num bar. Agridem-se, às vezes, apóiam-se, quase sempre. Javier Bardem, o maior mito sexual masculino da Espanha, tem aqui seu melhor papel, mas ele está gordo, careca, um lixo. Cria um personagem incômodo, no limite entre a consciência e o comportamento anti-social. Se você é pai, vai tremer nas bases na cena em que ele cuida de um garoto rico, revisando a fábula da cigarra e da formiga. A platéia riu muito, e a cena é divertida, mas na verdade deveríamos ter todos chorado pelas duras verdades que ele diz (e a forma como se comporta com o menino).

Filme forte

Nada, talvez, defina melhor o que o diretor Aranoa quer dizer do que frase de um personagem secundário, um ex-astronauta russo. Ele cita os dois grandes choques de sua vida, a descoberta de que tudo o que diziam de bem do comunismo era mentira, mas, em compensação, tudo o que diziam de mal do capitalismo é verdadeiro. Aranoa fez um filme forte, você vai ver.

Ricardo Elias conta a história de três crianças, três amigos. Dois deles são também irmãos. Adultos, um deles morre, ou é dado como morto, e os outros dois partem numa viagem em busca do corpo pela periferia de São Paulo. Um dos sobreviventes estuda para ser oficial militar. Não aceita que os outros dois tenham seguido um caminho tortuoso, no crime. Mas o tema de Elias é justamente a tentativa de sair do crime e a amizade como ferramenta para a afirmação pessoal e o resgate da cidadania.

O roteiro tem um lado As Horas, no seu encadeamento de tempo, mas soa mais fabricado que o filme de Stephen Daldry. As crianças não são propriamente ruins, mas há algo ali que emperra e o espectador percebe que eles representam; não vivem os papéis como os garotos de Cidade de Deus. Os adultos são ótimos. Algo se passa quando Elias pára durante longos minutos a câmera no rosto de Sílvio Guindane, o japinha de Como Nascem os Homens, que cresceu e continua bom ator. Aquilo ali se chama cinema. A magia do cinema que começa e se dilata na epiderme do ator para revelar o interior.