Quarta-feira à tarde. Sol a pino. Quatro músicos que têm sua própria história ligada, de uma forma ou de outra, à do Teatro Lira Paulistana vão chegando, um a um, no ponto de encontro marcado pela reportagem do jornal O Estado de S.Paulo, na Rua Teodoro Sampaio, 1.091, em Pinheiros, antigo endereço do célebre espaço, um porão, que esteve na ativa entre 1979 e 86. Chegam Arrigo Barnabé, Luiz Tatit e, logo em seguida, Tetê Espíndola e Claus Petersen. E descobre-se que a numeração mudou: hoje o 1.091 – onde tem uma lanchonete – não corresponde mais ao local que reuniu jovens artistas dos mais diferentes estilos e grupos, unidos pela vontade de fazer algo novo, que não se encaixava na mainstream da época – isso na música, no cinema, na literatura. Era um oásis, um templo, ou, como já chegou a descrever Luiz Tatit certa vez, “uma espécie de catacumba, onde se faziam muitas coisas que não aconteciam na superfície”.

Muita coisa mudou naquele trecho da Teodoro Sampaio. Os próprios Arrigo, Tatit, Tetê e Claus têm dificuldade de localizar onde ficava o Lira no passado. Vão de um canto a outro em busca de algum vestígio. Uma escada no fundo de um estacionamento ajuda na reconstituição. Tatit se lembra que a entrada do teatro dava de frente para a Praça Benedito Calixto, que virou uma espécie de extensão do Lira, com a realização de shows. E a hipótese mais plausível é que o espaço teria funcionado onde estão atualmente um hotel e uma outra lanchonete.

Ali, o Teatro Lira Paulistana encerrava suas atividades em 1986. Segundo o livro Lira Paulistana – Um Delírio de Porão, de Riba de Castro, no início daquele ano, “na gestão do Jânio Quadros, a Prefeitura de São Paulo começou a fazer exigências arquitetônicas para manter seu funcionamento. O Lira, então, fechou para reforma e não abriu mais”. Para relembrar esses três décadas sem o Lira, o Sesc Ipiranga realiza, a partir desta sexta-feira, 8, o projeto Lira Paulistana: 30 Anos. E depois?.

A programação inclui bate-papos, aula-show com Arrigo, mostra de filmes e, a cereja do bolo, uma série de shows que começa nesta sexta, 8, com Arrigo e Luiz Tatit, e a cantora Livia Nestrovski. No dia 30, é a vez do grupo Premê, do qual Claus Petersen faz parte, dividir o palco com Leo Cavalcanti e, no dia seguinte, 31, Tetê Espíndola mostra canções de seu disco Pássaros na Garganta (1982), entre outras, com Iara Rennó. Até fevereiro, outros convidados passarão pelo palco, como O Terno e Suzana Salles; Gereba, Passoca e Alzira Espíndola; Língua de Trapo e Danilo Moraes; Cida Moreira; e Bocato.

Uma das características do projeto é justamente promover esse encontro de gerações – muitas vezes de quem influenciou e foi influenciado. “Cada vez mais a gente sente que aparecem artistas que, de certa forma, estão utilizando elementos que foram típicos não só do Lira, mas de tudo que ocorria aqui em Pinheiros naquele momento”, constata Tatit. “É interessante que não é na geração seguinte que esse legado aparece. Ele aparece depois. Na geração seguinte, há um certa recusa àquilo, mas depois você começa a ver que isso ressoa, e está ressoando cada vez mais.”

Para o quarteto, o Lira Paulistana encontrou um terreno favorável para emergir. “A época pedia, estava muito chata a música. Já tinha passado Tropicália. Estava um ‘bolerão’ rolando. Gonzaguinha, Fafá de Belém, Bethânia. Em São Paulo, com a ditadura mais amena, começou a pipocar a criatividade das pessoas, e o Lira estava no momento certo e no lugar certo”, opina Claus. Arrigo observa que o Lira, sem intenção nenhuma, virou um lugar. “Antes, era outra turma. De repente, a coisa passou a acontecer na área de música, e equalizou a produção, um certo tipo de produção de música que se fazia em São Paulo. E, mesmo não existindo mais, ele continua sendo um catalisador, as pessoas se organizam em torno daquelas ideias”, diz o músico. “A gente não se encontrava, não fazia reuniões. Eram grupos distintos, o Luiz (Tatit) tinha o grupo dele (Rumo), o Premeditando (o Breque) tinha o deles.” Tetê emenda: “Para nós, o Lira significou algo que interligou os trabalhos de todos e formou um grupo”. Alegre por rememorar aqueles momentos, a cantora e compositora se recorda que, no pequeno camarim do Lira, recebeu de Arrigo a notícia de que eles iam participar do festival MPB Shell, em 1981, com a música Londrina.

Na lembrança deles, o fim do Lira não fora abrupto. Ocorreu aos poucos, longe de seus olhos, enquanto iam tocando suas vidas e carreiras. De repente, souberam que o teatro não existia mais. Mas, mais do que a saudade, ficou a certeza da perpetuação do legado. “O Lira foi uma coisa da época, hoje não teria sentido. O que interessa atualmente são movimentos acontecendo em vários lugares. Não interessa em um lugar, é a dispersão”, pondera Tatit. “Não era uma época melhor. A época melhor é sempre agora, mas, naquele momento, a gente conseguiu o que conseguiu por uma insistência enorme, porque tudo conspirava contra. A gente não ganhava. Era um ato quase que heroico.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.