São Paulo (AE) – ?Viva dona Nenê!?? ?Viva a Índia Cabocla?, gritavam os moradores da Vila da Barca, favela de palafitas na periferia de Belém do Pará, fazendo festa para vizinhos que haviam sido escolhidos para ser figurantes de uma cena de cinema. Em uma das regiões mais violentas da capital paraense, às duas da manhã já era hora de a vila se aquietar. Mas naquela madrugada do fim de setembro, a favela borbulhava em surpresa e curiosidade. Os moradores pararam para ver, ouvir e dar passagem a Andar às vozes, novo filme da premiada diretora Eliane Caffé. ?Vamos combinar uma coisa? Eu vou falar ?som, câmera?. Quando eu falar ?ação? é para fazer silêncio absoluto. Porque a personagem vai à casa do namorado dela. E é de madrugada. Precisamos fazer silêncio senão todo mundo, quando vir o filme, vai descobrir que é tudo mentira??, pedia Lili, a diretora.
Tudo verdade realmente o cinema de Eliane Caffé não é. Mas chamar de ?tudo mentira?? também não faz jus à forma peculiar de filmar que a cineasta paulista, responsável por filmes como Kenoma e Narradores de Javé, escolheu para contar suas histórias. Lili penetra sorrateiramente no reino de imagens que, apesar de se repetirem todo dia, são mesmo coisa de cinema.
Ainda que interfira o mínimo nos cenários em que filma, Andar às vozes é praticamente um filme de locação. Teve mais de 60, e é impossível não se afetar com o circo armado de uma equipe de cinema. Por isso, a Vila da Barca teve dias atípicos com a chegada da equipe. Fios, câmeras, refletores e caminhões. Mas, no fim, como queria Lili, até mesmo a criançada acabou se acostumando com o cinema, que daquela vez não estava guardado nos DVDs piratas que enfeitam as prateleiras forradas com singelas toalhinhas de plástico das casas de madeira da comunidade. O cinema estava lá fora. ?Pena que o Van Damme e o Tom Cruise não vêm aqui??, brincava Viviane, de 13 anos. ?Eu sei que a gente está invadindo a casa de vocês, mas vamos todos fazer este trabalho juntos??, pedia Lili. E a Vila da Barca silenciou para ver Luiz Carlos Vasconcelos, Cláudia Assunção e Vera Mancini se transformarem no casal Artur e Ciara e em Kátia.
Dona Nenê fazia seu papel, o de moradora local. Não entendeu muito bem como funcionava aquilo de luz, câmera e ação, mas obedeceu. ?Aqui só vem polícia, político (porque é ano de eleição), amigo e parente. Artista nunca vi, não. Este tal de Artur não é o médico lá do Carandiru???, perguntava Power dos Santos, de 16 anos. ?É ele sim. Eu vi na televisão (Vasconcelos, no seriado Carandiru)?, respondia a prima Yala Martins, que emendou: ?Aqui aparece mesmo é lixo. Olha só a lixarada toda boiando?.
Favela de palafita
Yala tem razão. É tudo verdade. Maré vai, maré vem e a Vila da Barca, uma das maiores favelas de palafita do país, com cerca de 2,5 mil famílias, vê o lixo acumulado subir e descer ao sabor do descaso. ?Não há macrodrenagem. Todo lixo que o povo joga nos rios vem parar aqui?, indignava-se o produtor de set Paulão. Lixo ou luxo, a vila convive com fábulas urbanas, como conta Selma Lucia Soares: ?Bom mesmo foi há uns anos, quando um contêiner de Barbies caiu de um navio. Foi a coisa mais linda. De manhã, quando a maré chegou embaixo da minha casa, era só boneca boiando. Estavam todas cheias de lama e esgoto, mas a gente lavou tudinho. Até hoje tenho a minha guardada?.
Selma Lucia, Power e Yala moram juntos com suas famílias na casa vizinha à de Artur. Típica casa de madeira, panelas penduradas nas paredes e teto pintado de verde-subúrbio, um cheiro úmido e familiar de pano mofado, a cachorrinha Lady presa para não cair no esgoto. A Vila da Barca vai dar lugar a um conjunto habitacional. É esse cenário que Lili, em sua ficção, acaba por imprimir em Andar às vozes. O modo de fazer cinema de Lili está intimamente conectado com a realidade pouco conhecida do país. Sem apelar para o chavão de retratar o Brasil profundo em tom folclórico, Lili cumpre o simples, porém árduo, dever de contar uma boa história.
E a história da vez começa muito antes de desembocar na Vila da Barca. Um river movie (em uma alusão ao road movie), a história começa rio acima, em uma vila onde o personagem de Luiz Carlos Vasconcelos, um artesão de rabecas, cresceu e viveu antes de ser preso por assassinato. Crime passional. Ao sair da prisão Artur quer apaziguar seu espírito, queima sua casa, passa pelo ritual do ?andar às vozes?? e cai no mundo a bordo do barco de Matuim (Chico Diaz), conhece Ciara e tenta ouvir as vozes que o conduzirão.
Andar às vozes é um antigo ritual de adivinhação que ainda é praticado em regiões remotas do Brasil. Grosso modo, entidades divinas são consultadas sobre o que se deseja saber. Em seguida, deve-se sair caminhando por lugares públicos para ouvir fragmentos de conversas das quais se pode tirar a resposta dada pelo oráculo. É só prestar atenção na conversa dos outros pelas ruas: ali estão as respostas para as questões de sua vida.
Cenário perfeito
O cenário é perfeito para grandes tomadas panorâmicas, mas os planos de Andar às vozes são fechados, quase sempre intimistas. ?É curioso isso. Quando se fala de um filme que se passa em paisagens tão incríveis como a Amazônia, pensa-se logo em tomadas aéreas. Mas Lili quer contar a história de pessoas. O cenário acaba se impondo nos detalhes e não em cenas de cartão-postal?, comenta o diretor de fotografia Pedro Farkas.
A tarefa de garimpar esses cenários coube ao diretor de arte Adrian Cooper. ?É mais difícil descobrir um ambiente que vai se integrar ao filme, em uma visão documental da vida, do que criar um cenário. Tem sido muito bom para mim porque tenho de estar sempre muito atento.?
E a produção penou. ?Para dizer o mínimo, dois caminhões ficaram presos na fronteira de Goiás com Tocantins. Negativos do filme foram roubados no Rio?, conta a produtora-executiva Sônia Hamburger. ?Para piorar, há a greve dos bancos. Tenho a equipe inteira para pagar e não sei como. Se não fosse o apoio do governo do Estado de São Paulo e do Estado do Pará, este filme não aconteceria?, acrescenta a produtora Van Fresnot. ?Até com a maré tivemos de aprender a lidar. A estrutura de produção no norte do Brasil é complicadíssima?, completa Sônia. Qualquer semelhança com as agruras enfrentadas por Werner Herzog quando filmou seu lendário Fitzcarraldo na Amazônia não é mera coincidência.