Fanny Ardant conversa com a reportagem pelo telefone. Está em Carcassonne, com a peça Croque Monsieur. O texto é uma comédia e ela faz uma devoradora de homens que descobre o amor. Mas o tema da conversa é Lola Pater, o filme que estreou na quinta, 23. O filme conta a história de um garoto que, após a morte da mãe, parte em busca do pai. Descobre que ele virou mulher. Fanny é muito simpática e efusiva, mas, quando o repórter lhe diz que o Brasil é campeão de assassinatos de travestis… “Alô-alô, Fanny. Você está aí?” O silêncio é longo. “Oui-oui, je suis. Sim, eu estou aqui. Mas isso é uma coisa horrível.

Mas por que as pessoas fazem isso? Só pode ser por um motivo. Transgêneros são pessoas libertas. Vão ao limite para exercer sua liberdade e se transformar no que acreditam que devem ser. Essa coragem de ser livre é ofensiva para quem vive reprimido(a).”

Mademoiselle Ardant – Jeanne Moreau ensinou ao repórter que uma atriz francesa é sempre ’mademoiselle’, mesmo que seja casada, viúva ou tenha 100 anos. O repórter arranca uma sonora gargalhada da mademoiselle ao ler um trecho da crítica da revista Télérama a Lola Pater. O crítico diz que Fanny consegue fazer do grotesco humano uma porta para o sublime. “Ele escreveu isso, é?”, e ela ri, gostosamente. Mas logo interrompe. “Estou rindo, mas no fundo acho deplorável. Um homem que realiza seu sonho de ser mulher não é grotesco. A personagem que faço na peça também poderia ser, mas para mim não é. Tudo o que é humano e foge das normas é trágico. Minha regra número um é representar a comédia como se fosse tragédia.”

Lola Pater é uma comédia de Nadir Moknèche, diretor francês de ascendência argelina que tem feito filmes para discutir a mulher no islamismo e a criminalidade urbana nas antigas colônias africanas. Fanny diz que não o conhecia, nem seus filmes, mas adorou o próprio Moknèche logo na primeira reunião com ele. “Nadir me disse que foi criado sem pai. Se aparecesse um ‘pãe’, o acolheria de braços abertos, porque pai e mãe a gente não escolhe. O importante é ter.” E Fanny acrescenta: “Ele tinha muita segurança sobre o filme que queria fazer e, ao mesmo tempo, tudo o que me dizia revelava sua sensibilidade, como o filme seria importante para ele. Adoro homens que não tem medo de expor sua vulnerabilidade”.

A pergunta que não quer calar. Fanny fez grandes filmes, mas, no Olimpo dos cinéfilos, ela é sempre lembrada pela parceria com François Truffaut, em A Mulher do Lado e De Repente, Num Domingo. Truffaut era assim – vulnerável? “Mais bien sûr, claro, e François era sedutor para as mulheres justamente por isso. Não tinha medo de se expor. Filmando mulheres e crianças, como gostava de fazer, ele projetava na tela o que tinha de mais sensível.” Decorridos 33 anos da morte de Truffaut – em 1984 -, ele ainda permanece como o homem da vida de Fanny. “Minha mãe e minha avó foram livres ao amar um só homem, cada uma. Eu também fui livre ao amar muitos homens, mas nenhum como François.”

A liberdade é um tema recorrente, em sua vida e obra. Fanny dirigiu o curta Chimères Absentes e virou militante da causa dos romanis, os ciganos. Por que? “Gosto de gente que vive na estrada, sem medo de ser livre. O que me segura é ser atriz, viver outras vidas. Senão, estaria no mundo.” Tem dirigido muito – três longas, incluindo Le Divan de Staline, com Gérard Depardieu no papel. “É um filme sobre o poder e a atração que exerce sobre as pessoas.” De volta a Lola Pater, alguma coisa que queira dizer ao público brasileiro? “Vejam sem preconceito.” E sobre o ator que faz seu filho – Tewfik (que ela pronuncia ‘Túfik’) Jallab? “É adorável. Queria que fosse meu filho na vida.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.