Quando jovem, o ator Bruno Fagundes participou de espetáculos infantis (“Cheguei a viver uma cenoura”, diverte-se), momento em que percebeu a importância do gênero para a formação de plateia: peças construídas com um mínimo de carinho e inteligência ajudam a incentivar a criança a querer ver outras até, então, tornar-se um frequentador assíduo da arte. Foram essas as divagações que o convenceram a se tornar o principal produtor de Carmen, A Grande Pequena Notável, agora em cartaz no Teatro Tuca.

O musical, que acompanha a consagração de Carmen Miranda, estreou no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo em setembro do ano passado, continuando depois a temporada no Teatro Itália. “Quando assisti, fiquei maravilhado pela forma lúdica com que a peça conta a história de Carmen, interessando tanto ao público infantil como ao adulto”, conta Fagundes, que está em cartaz no mesmo teatro, há quase três anos, com o espetáculo Baixa Terapia, no qual interpreta e produz.

Quando descobriu, porém, que o musical encerraria sua turnê naquele dia, por falta de patrocínio, Fagundes percebeu ser o momento de dar mais um passo em sua longa carreira de produtor – se, nos últimos anos, dispensou o uso de leis de incentivo para bancar os próprios espetáculos, montando um sistema cooperativado com elenco e equipe técnica, agora ele percebia que poderia patrocinar trabalhos dos quais não participa diretamente.

“Propus ao grupo o mesmo sistema de gerenciamento, o que garante a manutenção da peça em cartaz até o início do próximo ano”, festeja Fagundes, ciente da necessidade de um bom público a cada sessão – afinal, a boa manutenção depende da ocupação de pelo menos 50% da plateia por apresentação.

“O que favorece Carmen é o fato de ser um espetáculo pensado para toda a família, e não apenas para as crianças”, observa a produtora executiva Alexandra Martins. De fato, inspirado na obra de Heloísa Seixas e Julia Romeu e com direção de Kleber Montanheiro, o espetáculo utiliza da linguagem do Teatro de Revista para contar a história de Carmen Miranda (1909-1955), a portuguesa que chegou ainda criança ao Rio de Janeiro, onde iniciaria ainda jovem uma carreira ascendente, começando pelo rádio, passando pelas primeiras gravações em disco até atingir o estrelado em Hollywood.

“É um trabalho de composição exaustivo, pois exige atenção com muitos detalhes”, comenta a atriz Amanda Acosta, que vive a Pequena Notável no palco. “É mais cansativo que interpretar Bibi Ferreira.” Ela se refere ao papel que interpretou em Bibi – Uma Vida em Musical, espetáculo cuja grande atuação lhe rendeu praticamente todos os prêmios de melhor atriz do ano passado.

De fato, se, para viver Bibi, Amanda descobriu o timbre correto da voz e a perfeita cadência para dizer as frases, como Carmen Miranda, ela se deparou com uma mulher muita expressiva com o corpo. “O mexer das mãos, por exemplo, que muitos imitadores gostam de fazer, tem um traçado muito específico, praticamente coreográfico. Parece fácil, mas não é”, comentou ela, à época da estreia do espetáculo, em 2018.

Outro desafio está na voz – segundo a atriz, Carmen tinha uma cadência diferente, em que usava um tom grave ao falar, mas acrescentava timbres mais agudos quando cantava. Na verdade, Carmen era dona de um registro de meio-soprano de curta extensão.

E, entre viver duas grandes mulheres da cultura brasileira, Amanda marcou presença em As Cangaceiras, Guerreiras do Sertão, musical extremamente delicado que retrata a força rebelde feminina no agreste. O espetáculo volta em cartaz em abril de 2020, também no Tuca.

Flávio de Souza

O próximo ano vai trazer também novidades envolvendo Antonio Fagundes – além de estender a temporada de Baixa Terapia até março, quando completa três anos em cartaz, o ator leva o espetáculo para o Rio, onde estreia em maio.

“Mas já estamos conversando com o (escritor e roteirista) Flávio de Souza, que criou para a TV, entre outros trabalhos, Castelo Rá-Tim-Bum e Mundo da Lua, para pensarmos um projeto juntos”, conta Fagundes que, entre os anos 1964 e 65, participou de três peças infantis no Teatro Arena. “Um deles foi um texto do uruguaio Mauricio Rosencof, no qual eu vivia um espião infiltrado cor-de-rosa”, diverte-se. “O teatro infantil ajuda muito na formação de público.”

CARMEN, A GRANDE PEQUENA NOTÁVEL
TEATRO TUCA. RUA MONTE ALEGRE, 1024.
TEL.: 3670-8455. SÁB. E DOM., 15H.
R$ 40 / R$ 80
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.