Em uma sala no segundo andar do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) do Rio, o ator Bruno Peixoto convida dois visitantes da exposição Que Tempos São Esses? a se sentarem à mesa. Guardanapo no colo, prato à frente, cada um recebe um par de facas vermelhas. Com um gesto, enquanto discorre um trecho de Um Homem é Um Homem, de Bertold Brecht (1898-1956), o ator pede que se descubra a travessa localizada no centro do móvel: ali está um peixe.

A cena faz referência ao texto do dramaturgo alemão sobre um estivador que sai para comprar peixe e é convencido a levar um pepino e até a assumir a identidade de um soldado – metáfora da manipulação na sociedade de consumo. “Um homem que está sendo desmontado por um mecanismo social, que vai se desumanizando até se despersonalizar”, diz Bruno. “A tendência é eles se engalfinharem para ficar com aquele peixe.”

A performance integra a homenagem que a Companhia Ensaio Aberto faz a Brecht nos 60 anos de sua morte. Sem a pretensão de contemplar integralmente a biografia e a obra do pensador alemão, a ocupação, que fica em cartaz no CCBB-RJ até o da 19 de setembro, pretende mostrar a posição do artista como um intelectual militante no contexto do teatro político.

“Gosto muito do humor dele, da dialética, da subversão de padrões”, comenta Luiz Fernando Lobo, diretor e fundador do grupo carioca e também o curador da exposição.

Escrita em 1924, Um Homem é Um Homem marca a aproximação do dramaturgo alemão com o marxismo e o aprofundamento das características do chamado teatro épico. A peça foi lida pelos atores do grupo na semana passada. A próxima leitura do ciclo será de A Vida de Galileu, no dia 18, considerada sua obra-prima e escrita durante o exílio da Alemanha nazista.

Também faz parte da programação a exibição de peças gravadas e de filmes baseados na obra do dramaturgo, em uma parceria com o Brecht Archive, da Alemanha. Deste sábado até segunda-feira, 12, Lobo ministra a oficina Brecht e o Teatro dos Trabalhadores. Há ainda um seminário internacional, entre os dias 14 e 16, com presenças como a do especialista em teatro documentário alemão Hans Werner Kroessinger e o diretor da Companhia do Latão, Sérgio de Carvalho, grupo paulistano que também pesquisa a obra do dramaturgo.

E, bem ao modo brechtiano do fazer teatral – em que há a quebra da quarta parede -, os atores da Ensaio Aberto abordam diretamente o público. É uma exposição viva. Num primeiro momento, o elenco interage individualmente com o visitante, recitando trechos da obra do alemão. Outras vezes, o público é chamado para performances específicas, como a do peixe ou a de um cabaré, por exemplo. Os textos foram escolhidos pelos próprios atores e a encenação, então, foi lapidada pelo diretor. “Esse formato eu acho muito interessante porque ele não tem o compromisso formal de uma peça, você pode trabalhar mais com exercícios, com laboratório, com experimento”, diz Lobo.

A novata Nady Oliveira, que entrou na companhia em janeiro, conta que uma mulher chorou muito ao ouvi-la dizer um trecho de A Esperança do Mundo (“Quanto maior é o número dos sofredores, mais natural parecem ser os sofrimentos”). Ao final, a atriz ganhou um abraço.

“No teatro dramático, você envolve o espectador. No épico, você conversa com o espectador e traz para ele o seu discurso, não há personagem”, explica o ator Gilberto Miranda sobre a diferença entre as formas de narrativa. “E, quando você dá o direito de resposta, tem que ouvir a resposta e são as mais variadas possíveis. Não há nada mais rico que o ser humano.”

Ainda que só tenha montado uma peça de Brecht – A Mãe, em 1996 – e dois cabarés com textos do dramaturgo, a obra brechtiana tem grande influência na companhia surgida em 1992, reflexo também do engajamento político de seus integrantes com a esquerda. Lobo e os atores da Ensaio Aberto participaram ativamente das manifestações no Rio contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff e as decisões na área cultural do governo Michel Temer.

“A classe teatral de novo deu uma acordada e passou a ter um papel que teve em outros momentos do País – em 1964, em 1968 – e o Brecht é muito oportuno para as pessoas verem que é preciso dialogar com o seu tempo. O Brecht não falava nem de passado nem de futuro. E eu penso que é isso que nós devemos fazer nesse momento: é dialogar com o nosso tempo”, considera a atriz Tuca Moraes, produtora e uma das fundadoras da Companhia Ensaio Aberto.

*O repórter viajou a convite da produção da exposição

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.