Serge Toubiana considera uma grande honra que a exposição François Truffaut seja acolhida no Brasil pelo MIS. O diretor do Museu da Imagem e do Som, André Sturm – que, além de cineasta, distribuidor e exibidor, é cinéfilo de carteirinha -, poderá retrucar que a honra é dele. É nossa, que amamos Truffaut, mesmo que, eventualmente, não todo. A exposição que vem da Cinemateca Francesa, com curadoria de Toubiana, também autor de um livro essencial sobre o diretor, traz filmes, objetos, documentos. Em São Paulo, inicia-se na semana que vem. Terça-feira, dia 14. Guarde a data.

“A edição paulista é muito parecida com a francesa”, diz Toubiana. E ele espera que, depois daqui, o retrospectiva ganhe o mundo. “A viagem deve continuar…” Toubiana respondeu às perguntas por e-mail. Coincidência ou não, a Versátil lançou uma caixa dedicada à nouvelle vague com um filme de Truffaut – Um Só Pecado – e está lançando outra caixa dedicada exclusivamente ao diretor, com três títulos. Há muito o que falar, discutir e (re)avaliar sobre Truffaut. No ano passado, completaram-se 30 anos de sua morte prematura. Pode-se começar por aí. No Dicionário de Cinema, Jean Tulard diz que a morte de Truffaut provocou verdadeira comoção na França, alguma coisa como um luto nacional. Decorrido todo esse tempo, o que resta como herança?

“Olhando na perspectiva de hoje, o que mais emocionou as pessoas foi justamente o fato de que Truffaut morreu jovem, aos 52 anos, e deixou uma obra na qual se encontram filmes que tocaram um público amplo, seja Os Incompreendidos ou O Último Metrô”, avalia Toubiana. “Sua personalidade, seu rosto, seu percurso de homem e artista eram conhecidos, e ele foi também o primeiro cineasta da nouvelle vague a morrer. Tudo isso criou o luto nacional. O que resta são os filmes, que nunca pararam de ser vistos e revistos, e foram descobertos por novas gerações de espectadores e cinéfilos. É o crítico que nos fez descobrir o cinema mundial, por meio de seus textos e de seu amor por artistas como Chaplin, Lubitsch, Hitchcock, Renoir, Becker, Rossellini, Guitry, Ophuls, e outros.”

François Truffaut foi um crítico virulento. Quando não amava um filme ou um diretor, não media seus ataques. Não foi tolerante, por exemplo, em relação a René Clément, a quem demoliu. Há dois anos, a cópia restaurada de O Sol por Testemunha teve uma acolhida triunfal em Cannes. O filme foi aplaudido de pé – o repórter estava lá e viu o próprio Toubiana levantar-se para reverenciar Clément. Isso significa que, hoje, é preciso relativizar o que Truffaut dizia? “François foi um crítico feroz porque exigente”, diz Toubiana. “Enfrentou com coragem o establishment do cinema francês do pós-guerra, que excluía a juventude. Foi muito graças a François que as barreiras puderam ser transpostas pelos jovens cineastas que, até então, não tinham os meios para fazer seus filmes. Mas você tem razão de evocar René Clément, atacado por Truffaut em seu famoso texto de 1954 em Cahiers du Cinéma, Uma Certa Tendência do Cinema Francês. Clément fez grandes filmes, não apenas O Sol por Testemunha, mas M. Ripois/Um Amante sob Medida, com Gérard Philippe, e outros. O importante é não retomar, de forma idêntica, os gostos e desgostos de François. Ele próprio reviu certas posições, mudando de opinião depois de rever alguns filmes ou de conhecer outros. O que precisa ser destacado é que sua visão era justa, animada por um verdadeiro espírito renovador.”

De Truffaut, diz-se sempre, e com razão, que era um homem que amava as mulheres, um romântico que desconfiava do romantismo. Toubiana duvida um pouco. “Mais que um romântico, ele era um narrador que amava contar histórias. Há na sua obra uma vertente que chamo de ‘paixão amorosa’ e que ele levou ao limite da morte. Esse Truffaut amoroso e sombrio sabia ser doloroso sem perder o olhar crítico.” Toubiana também duvida que Truffaut tenha feito filmes para dormir com suas atrizes, como disse ao repórter um de seus antigos assistentes. “Além de reducionista, é um pouco vulgar dizer isso. Truffaut filmava porque sentia que tinha boas histórias que queria contar e também porque o cinema era sua paixão íntima. Escolhia os atores e atrizes em função dos papéis, e não o contrário. Em muitas fotos de filmagem, é possível vê-lo sussurrando no ouvido das atrizes, indicando gestos precisos. Ele estabelecia um clima de intimidade que, visto de fora, podia suscitar mal-entendidos. Ocorreu de apaixonar-se por algumas de suas atrizes, mas não todas, e sempre uma de cada vez. É o mistério do homem e do artista.”

Apesar das diferenças entre Truffaut e Jean-Luc Godard à testa da nouvelle vague, Toubiana acha uma facilidade dizer que Jean-Luc virou revolucionário e que François se aburguesou. “Truffaut e Godard foram amigos, até mesmo cúmplices na juventude. Mas não tiveram as mesmas origens sociais e culturais. Truffaut foi um autodidata que tudo aprendeu na Cinemateca Francesa de Henri Langlois e nos cineclubes após a guerra, lendo e escutando (André) Bazin e começando a escrever sobre cinema nos Cahiers a partir de 1953.

Godard cursou a Sorbonne e, mesmo que depois tenha preferido a aventura ao diploma, era um filho rebelde da burguesia. Nos Cahiers, lutaram para impor os mesmos cineastas. Truffaut realizou seu primeiro filme em 1958 e forneceu a ideia e ajudou Godard a fazer o primeiro dele no ano seguinte. A ruptura ocorreu em 1968. Truffaut não radicalizou como Godard – era mais uma questão de temperamento -, mas sua obra expressa uma visão da infância, do amor e da sociedade por meio de personagens que vivem numa espécie de clandestinidade, ou em todo caso não são estabelecidos socialmente.”

O repórter anuncia seus filmes preferidos de Truffaut – Jules e Jim/Uma Mulher para Dois e O Garoto Selvagem. E os de Toubiana? “Meu filme favorito muda segundo a época. Mas tenho uma paixão particular por O Homem Que Amava as Mulheres. A forma é harmoniosa, a proposta sobre o amor é não apenas original, como ousada e o filme é emocionante. Charles Denner faz um duplo magnífico de Truffaut. Graças à sua presença, o personagem é inspirado e terrivelmente atormentado. E tem ideias fixas. Como Truffaut.”

TRUFFAUT: UM CINEASTA APAIXONADO

MIS. Av. Europa, 158,

Jardim Europa, tel. 2117-4777. Abertura: 14/7. 3ª a sáb., 12h/20h;

dom., 11h/19h. R$ 10 (grátis às 3ª). Até 18/10.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.