Um cubo vermelho suspenso sobre a piscina do palacete do Parque Lage reflete, dependendo da luminosidade do dia, uma forma geométrica vibrante na água. A obra da artista Tsuruko Yamazaki foi criada em 1956, quando a japonesa era expoente do grupo Gutai, mas, agora, a instalação que repousa e ativa o pátio interno do local, torna-se um dos destaques da mostra Arte Vida, que começa nesta sexta-feira, 27, e estende até 21 de setembro, no Rio.

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“O Gutai tem várias conexões com o neoconcretismo, com a relação da cor com a geometria, com o corpo, com a interatividade”, diz Adriano Pedrosa, curador, ao lado de Rodrigo Moura, da exposição que ocupará quatro espaços da cidade. Projeto de R$ 4 milhões, Arte Vida estabelece cruzamentos entre mais de 300 obras realizadas dos anos 1950 aos 80 por brasileiros e estrangeiros. É mostra de caráter histórico, que joga luz para a criação experimental, ligada, geralmente, a questões do corpo e da política.

O palacete do Parque Lage não apenas recebe, em seu pátio central, o cubo vermelho da japonesa Tsuruko Yamazaki. Lá estão também, em uma sala expositiva, as esculturas-vestidos geométricas negras da série Hábito/Habitante, da alagoana Martha Araújo. No local, ainda, fotografias registram a brasileira usando este trabalho já histórico, de 1985. “Buscamos alguns artistas que não têm a visibilidade e reconhecimento que merecem”, afirma Adriano Pedrosa, que assina com Rodrigo Moura a curadoria da mostra artevida, a ser inaugurada hoje na cidade carioca.

Trata-se de um projeto grande, realizado pelos curadores a convite da Secretaria de Estado de Cultura fluminense. O palacete do Parque Lage, no Jardim Botânico, apresenta, na verdade, apenas um dos segmentos da exposição, que se espalha também, agora, pela Casa França-Brasil (Rua Visconde de Itaboraí, 78) e pela Biblioteca Parque Estadual (Av. Presidente Vargas, 1.261). Mais ainda, a partir de 19 de julho, outros dois locais da capital receberão partes da mostra – o Museu de Arte Moderna (Av. Infante Dom Henrique, 85), e as Cavalariças do Parque Lage, espaço que abrigará trabalho comissionado do escultor africano Georges Adéagbo, do Benin.

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Está no título da mostra que ela trata de relacionar a arte e a vida, mas a exposição toma este partido por um olhar conceitual e histórico, centrando atenção, especialmente, para criações das décadas de 1960 e 70. “Relações, conexões, leituras, correspondências, comparações”, enumera Pedrosa, são alinhavadas a partir da arte brasileira – e de alguns de seus artistas e obras – com trabalhos de estrangeiros – a maior parte, desconhecidos ou pouco vistos no País e de regiões como o Oriente Médio, o Leste Europeu e a Ásia.

Na Casa França-Brasil, onde ocorre nesta sexta-feira, 27, às 11 horas, a primeira inauguração do projeto, da mostra artevida (corpo), as esculturas da década de 1960 da artista libanesa Saloua Raouda Choucair, de 98 anos, são estruturas modulares de madeira e terracota que dialogam com os Bichos criados na mesma época por Lygia Clark (1920-1988). As geométricas peças escultóricas de alumínio e com dobradiças que a brasileira realizou como convite ao manuseamento – e participação – de uma obra já são tão fundamentais na historiografia que se tornam o mote de um núcleo central da exposição.

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Convergências

Nesse segmento, ainda, réplicas das esculturas de Lygia Clark também inspiraram ligações, por exemplo, com frottages sobre papel de 1977 da húngara Dora Maurer e com os grandes volumes de aço que, em 1967, a alemã Charlotte Posenenske colocou como elementos a serem compostos livremente pelas pessoas. A participação do polonês Edward Krasinski – escalado também para a 31.ª Bienal de São Paulo – é outro destaque, como a exibição do escultórico Heptágono (1977) espelhado da iraniana Monir Shahroudy Farmanfarmaian.

“São convergências, afinidades de interesse, pontos de contato, mas sempre lidando com a ideia de que estamos tratando de contextos e cronologias diferentes”, afirma Rodrigo Moura. “Do nosso caso, brasileiro, partimos de um contexto carioca de arte experimental mais voltada para processo e para a experimentação e que por isso é mais aberto à vida”, continua o curador, que é diretor do Instituto Inhotim.

À luz do neoconcretismo, outra brasileira fundamental na pesquisa é Lygia Pape (1927- 2004), representada por xilogravura de sua série Tecelares (1957), registro fotográfico do trabalho Divisor e pelo vídeo Trio do Embalo Maluco, ambos de 1968. Hélio Oiticica (1937- 1980) torna-se também incontornável, com Parangolés, mas é importante citar as participações, do Brasil, de Anna Maria Maiolino, Anna Bella Geiger, Antonio Dias, Iole de Freitas e Antonio Manuel.

Em artevida (corpo), temas como o autorretrato, o corte e a linha orgânica vão ainda promovendo o diálogo entre criações como de Ana Mendieta, Geta Bratescu, Ulay, Annegret Soltau, Yoko Ono, Gego e Seung-Taek Lee – o coreano é um destaque, especialmente, pela obra Godret Stone (1958), em que uma barra segura pedras penduradas por cordas.

Mas o projeto ainda compreende dois outros segmentos importantes. O intitulado artevida (arquivo), na Biblioteca Estadual, traz a público, agora, boa parte do arquivo do artista pernambucano Paulo Bruscky – com curadoria de Cristiana Tejo – e em julho, apresenta, no local, as peças de Graciela Carnevale. Já o Museu de Arte Moderna do Rio apresentará, no próximo mês, a grande mostra artevida (política). Obras de seu acervo dialogarão com outras vindas de coleções de vários países, ressaltando as respostas que criadores diversos deram a questões como ditadura, censura e repressão. A REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DA PRODUÇÃO DA MOSTRA As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.