Um dos passatempos prediletos da cantora portuguesa Eugénia Melo e Castro é "destruir" as canções que ouve no som do carro. Cantando em cima das gravações originais, ela viaja nas possibilidades de criar algo diverso no processo de reconstrução dessas canções, mas sem alterar a essência, apenas a forma. Era fatal que Chico Buarque – um dos grandes compositores brasileiros que fazem parte de sua história pessoal – fosse um de seus alvos. No show que estréia hoje no Baretto, em São Paulo Eugénia mostra parte do que fez com o cancioneiro dele no disco Des cons tru ç ão, que será lançado logo depois do Carnaval de 2005.

Das 20 faixas do CD, 13 estarão no show. O grande número de músicos que a acompanham também será reduzido para caber no pequeno e aconchegante ambiente do bar. O violonista Eduardo Queiroz, que dividiu com ela a produção de Des cons tru ç ão e é responsável pelos arranjos e direção musical, lidera o grupo que tem ainda Renato Consorte (contrabaixo), Christiano Rocha (percussão) e Emilio Mendonça (piano). O lançamento do disco será acompanhado de uma turnê pelas principais capitais do País, em ambientes mais amplos, com ingressos mais acessíveis, o repertório integral e músicas extras.

A princípio, Eugénia iniciaria ontem a pequena temporada de duas semanas, mas algo inusitado ocorreu, como ela mesma conta. "Uma mulher de São Paulo comprou todos os ingressos para a estréia, acabou virando um show fechado." A pessoa em questão prefere não ter a identidade revelada. Só queria festejar o aniversário com os amigos no Baretto. Como é fã de Eugénia, foi uma feliz coincidência. "Isto é um bom sinal de que o projeto começou com o pé direito" , comemora a cantora.

No disco, Adriana Calcanhotto faz dueto com ela em uma faixa (ótima fusão de Bem Querer com Futuros Amantes) e Chico em outras duas: Bom Conselho e Injuriado. Havia a participação dele em outra (fazendo rap no final de Olê Olá). Eugénia teve de retirá-la às pressas, com o disco já masterizado e regravá-la porque Chico não gostou do resultado da própria voz. E era determinante para Eugénia que ele aprovasse tudo. "Fiz este disco primeiro para ele, depois para mim e os outros. Não ficaria tranqüila se fizesse algo que ele não gostasse, que o deixasse horrorizado", conta ela.

Só que ter a aprovação de Chico não é tão fácil quanto parece, nem para quem tem muita intimidade com o que está lidando. "Precisava ver as caras que ele fazia quando ouvia as primeiras vezes, mas depois ele ia se acostumando. Foi uma ousadia minha, porque fugi da coisa bonitinha, apesar de as canções serem todas lindas. Coloquei meu lado autoral nelas, mexi nas harmonias todas, por isso precisava da aprovação dele."

Este não foi o único desafio. O primeiro foi estabelecer um critério diante da vasta produção de qualidade do autor. "Daria para fazer uns 50 discos. Tem músicas que não sei como viver sem elas e não tiro a possibilidade de fazer um volume 2", adianta Eugénia. "Tive de me disciplinar. Então escolhi o Chico autor, que está mais na ordem do dia. Hoje ele é mais escritor do que compositor, então o disco também é uma homenagem a isso, ao momento atual dele." A partir daí, ela privilegiou, entre as canções que ele assina sozinho letra e música, aquelas com as quais se identifica – cuja carga de sentimentos fosse compatível com sua maneira de interpretar.

Muitas das canções (mais da metade vinda dos anos 70s) integram sua memória auditiva, marcadas pelos registros de Elis Regina, Clara Nunes, Gal Costa, Maria Bethânia, Nara Leão, Miúcha e Chico.