Na Inglaterra, na Austrália e na Nova Zelândia, a história é razoavelmente conhecida – o romance entre o poeta John Keats e sua musa, Fanny Brawne, ultrapassa a história da literatura. Havia o risco – essa história 100% romântica teria condições de interessar ao público não necessariamente de língua inglesa? Em Cannes, no ano passado, a diretora Jane Campion admitia que valia a pena ter arriscado. A resposta dos espectadores – jornalistas de todo o mundo – havia superado sua expectativa mais otimista. É verdade que “Brilho de Uma Paixão” (Bright Star), que estreia hoje em São Paulo, é o melhor filme da autora desde os sucessos do começo de sua carreira, com obras como “Um Anjo em Minha Mesa” e “O Piano”, que ganhou a Palma de Ouro em Cannes.

Jane fez história como a primeira mulher a receber o cobiçado prêmio. Na verdade, até agora, a única. Mas ela não supervaloriza os prêmios e até hoje se surpreende quando lê, associada ao seu nome, a definição de cineasta ‘feminista’. No sentido doutrinário, ela recusa o rótulo com veemência, mas, como mulher, a ideia de brigar por espaço num universo tão dominado pelos homens até que lhe agrada e ela termina por aceitar que seja uma feminista. No caso de Bright Star, Jane credita o sucesso aos atores. Como ela disse, numa entrevista realizada em Cannes, no ano passado, precisava de um ator inteligente e sensível, no qual o público acreditasse como um jovem capaz de escrever poesia. Ben Whishaw tinha o perfil romântico que ela considerava necessário para o personagem, mas pesaram favoravelmente as referências que ela ouviu dele, como tendo feito um ótimo Hamlet numa (re)montagem da peça de Shakespeare.

Abbie Cornish, que faz Fanny, já era conhecida de Jane, ou pelo menos seu trabalho. E Paul Schneider, que interpreta Charles Brown, foi paixão à primeira vista. Jane conta que integrava o júri de Veneza quando o viu em “O Assassinato de Jesse James”. Impressionada, ela pensou consigo mesma que adoraria oferecer-lhe um papel e trabalhar com ele, só não sabia que seria tão cedo. Os atores certos, mas havia também o cuidado com a imagem, a cor e a cenografia. Jane admite que gosta de fazer filmes de época. “O cuidado detalhista me apaixona”, explica. Em “Brilho de Uma Paixão”, o desafio não era tanto contar a história de John Keats, mas contá-la do ponto de vista de Fanny Brawne.

Trabalhando com atores de diferentes nacionalidades, Jane Campion admite que precisou de um aliado importante, o coach, treinador, que trabalhava com o elenco para ajustar os sotaques, de forma a não ferir o ouvido do espectador, em especial o que domina o inglês. Não houve muito tempo para pesquisa, mas Ben Whishaw leu o máximo de Keats que conseguiu. A diretora encorajou-o a se encontrar com especialistas para aprofundar o significado das poesias. O maior elogio veio de sua filha. “Ela não conhecia grande coisa de Keats nem seus amigos. Adoraram o filme. Quando cheguei a Cannes e vi que outra garotada também se interessava pela história, tranquilizei-me. Teria sido uma vergonha desperdiçar romance tão bonito.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.