O intercâmbio entre o teatro e a ópera vem à tona em dois novos espetáculos da temporada carioca: O Pequeno Zacarias, adaptação para ópera do conto de fadas do escritor e compositor alemão E.T.A. Hoffmann, em cartaz no Teatro Sesc Ginástico; e As Bodas de Fígaro, texto de Beaumarchais transformado em ópera por Mozart, que ganha o palco no sábado, na Casa de Cultura Laura Alvim. As encenações foram concebidas a partir de sólidas parcerias artísticas e suscitam conexões com a atualidade e/ou com o Brasil.

O Pequeno Zacarias – Uma Ópera Irresponsável dá continuidade ao vínculo entre Tim Rescala (que assina a música) e José Mauro Brant (que acumula as funções de diretor – juntamente com Sueli Guerra -, ator e adaptador), iniciado com a gloriosa montagem de Pianíssimo. É a segunda etapa de uma trilogia dos contos de fadas – a primeira, Era uma vez… Grimm, deverá chegar a São Paulo em 2015. Brant teve a ideia quando se deparou com novas edições da obra de Hoffmann. “Pensei em como Hoffmann faria no caso de adaptar Zacarias para o terreno da ópera.”

Rescala e Brant partilham da paixão pela ópera. “A ópera está na minha vida desde sempre. Meu pai era barítono do coro do Theatro Municipal do Rio. Eu e meu irmão, Zé Rescala, que é tenor do mesmo coro, nos habituamos a frequentar o Municipal”, lembra Rescala. A figura do pai também está na base da relação que Brant estabeleceu com a ópera. “Perdi meu pai ainda criança e criei o meu mundo. Ia ao cinema indiscriminadamente e assisti a La Traviata (1982), de Franco Zeffirelli. Cheguei em casa e disse para a minha mãe que, no filme, as pessoas cantavam ao invés de falarem. Comecei a frequentar o Theatro Municipal. Achei que seria cantor lírico, diretor de ópera”, assinala Brant, que, poucos anos depois, se encantou pelo teatro ao assistir à encenação de Eletra com Creta, de Gerald Thomas, motivado pelo nome da companhia – Ópera Seca.

Brant traça elos entre O Pequeno Zacarias e os dias de hoje. Hoffmann conta a história de Zacarias, anão corcunda que nasce num pequeno reino, na Prússia do século 19, e só consegue sobreviver graças à dádiva recebida da Senhorita Rosaverde – na verdade, a Fada Rosabela. Ela precisa permanecer incógnita e reclusa desde que o príncipe decretou que as fadas deveriam ser banidas do reino. A dádiva de Rosabela transforma Zacarias numa celebridade instantânea. “Os seres mágicos são banidos por suas ideias transgressoras. Atualmente vemos regimes totalitários explodindo mundo afora”, compara Brant, que divide a cena com atores como Soraya Ravenle e Sandro Christopher e sete músicos.

Já As Bodas de Fígaro despontou da parceria entre o diretor Daniel Herz e o ator Leandro Castilho. Esse trabalho tem parentesco com a montagem infantojuvenil de O Barbeiro de Ervilha – evidentemente inspirada em O Barbeiro de Sevilha, de Rossini -, na qual Castilho também respondia pela direção musical e interpretava Fígaro. Há, porém, diferenças importantes entre os dois espetáculos. “O Barbeiro de Ervilha era uma adaptação mais voltada para o Nordeste brasileiro. Em As Bodas de Fígaro, não quis regionalizar tanto. Usei mais a partitura original. Mas as letras são minhas”, esclarece Castilho, que integra o elenco formado por atores como Alexandre Dantas, Claudia Ventura e Ernani Moraes.

Tanto no plano temático quanto no musical, As Bodas de Fígaro evidencia a possibilidade de ligação com o Brasil. “O texto aborda os excessos de poder dos nobres”, detecta Herz. Ambientada numa Sevilha fictícia do século 18, a história acontece no dia do casamento dos criados Fígaro e Suzana. A felicidade dos noivos está ameaçada por causa do “direito da primeira noite”, que permitia ao senhor feudal usufruir do leito de suas criadas antes de seus maridos. Para evitar tal assédio, Fígaro coloca em prática uma série de artimanhas.

No que diz respeito à esfera musical, Herz e Castilho promovem um casamento entre Mozart e ritmos brasileiros. Há uma variedade de instrumentos em cena (piano, flauta, viola caipira, saxofone, acordeão), com os atores cantando e tocando ao vivo as canções. “Como as pessoas não costumam ter muito contato com ópera no Brasil, manter o original, sem transposição, pode dificultar o acesso. Mas é claro que nada impede que um leigo veja uma ópera no original e fique maravilhado”, observa Castilho. Cabe notar, contudo, um desejo de investir no abrasileiramento, a julgar pelos universos descortinados em outros musicais de Herz, como Geraldo Pereira, Um Escurinho Brasileiro, Otelo da Mangueira e Tom e Vinicius. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.