Sujeito oculto, de Manoel Carlos Karam, 144 pp., Editora Barcarolla (www.editorabarcarolla.com.br), São Paulo, 2004; R$ 31,00. Curitiba abriga um grupo de escritores inventivos, inconformados como é de praxe acontecer a pessoas lúcidas. Alguns dos maiores reconhecimentos literários brasileiros foram parar nas mãos deles. Em 1995, Manoel Carlos Karam arrebatou o Prêmio Cruz e Sousa. E ano passado, Dalton Trevisan levou para Curitiba o Prêmio Portugal Telecom. Lá pontificam ainda, entre outros, Wilson Bueno, autor do esplêndido Mar paraguayo, Roberto Gomes, também catarinense, com Os dias do demônio e Alegres memórias de um cadáver, e Cristóvão Tezza, igualmente catarinense, autor de O terrorista lírico (1981) e o recente O fotógrafo (2004). Domingos Pellegrini Jr. e Miguel Sanches Neto, outros talentos paranaenses, vivem no interior do Estado. Na poesia temos a referência solar de Alice Ruiz. Outros escritores, precocemente falecidos, como Paulo Leminski e Jamil Snege, não tiveram quando vivos o reconhecimento que faziam por merecer, dado o estranho costume de nossa crítica de exigir como requisito para apreciação o atestado de óbito do autor. Jamil Snege, aliás, declarou certa vez: "Devo ter 400 ou 500 leitores fiéis e eles fazem mais barulho que os milhões de leitores do Paulo Coelho. Prefiro os avessos, os desajustados, aqueles que estão sempre indagando de deus se o homem foi a melhor coisa que ele conseguiu fazer".

Manoel Carlos Karam tem poucos leitores. São uns felizardos. Mas aumentará muito o plantel com o novo romance. Esse Sujeito oculto enseja nova oportunidade de buscar algumas obsessões do narrador, dentre as quais emergem como referenciais importantes a difícil arte de conviver com o semelhante e o absurdo de tal destino, o que gera o tema da solidão como opção quase compulsória. Os fragmentos de tramas, os cacos do vitral de Karam e todas as preciosas miudezas que compõem Encrenca, desarrumando o leitor, voltaram mais refinados em Sujeito oculto. O bar, o trabalho e principalmente a rua ganharam novas dimensões.

Preso às tramas

Karam insiste no absurdo da existência. Seu viés, porém, não é o desolador olhar de um Camus, de um Sartre, mas o de um brasileiro desconfiado. Muito desconfiado. Logo na abertura, diz o narrador: "Troquei a camisa por uma de dois bolsos, a velha mania de acreditar que poderia precisar deles, que não bastariam os bolsos da calça e do paletó, porque existem profissões que dependem de bolsos". A profissão, no caso, é a seguinte: seu personagem solar é um estranho matador. Nada sabemos dos motivos que o levam a exercer o ofício, tampouco somos informados do que fizeram suas vítimas para merecerem a execução.