Capa do novo álbum de Eric Clapton.

No Delta do Mississippi, mítico rio do Sul dos Estados Unidos, existe um bar-estalagem chamado Shack Up Inn, cujo slogan é o seguinte: “O mais antigo B&B (Bed & Beer cama e cerveja) do Mississippi, um lugar para os peregrinos ficarem enquanto procuram a encruzilhada onde se supõe que o pioneiro bluesman Robert Johnson vendeu sua alma ao Diabo.”

Robert Johnson, como se vê, tornou-se mais que um músico; tornou-se parte da mitologia de um gênero. É parte das oferendas feitas em um rito pagão, como a cachaça e o frango preto no despacho.

Seria de se esperar que, um dia, Eric Clapton resolvesse encarar o maior dos desafios: gravar um disco apenas com o repertório de Robert Johnson. E isso acabou acontecendo. Me and Mr. Johnson (Warner Music), que chegou há alguns dias às loja brasileiras, é um dos mais refinados álbuns do ano.

O álbum traz 14 canções das 23 únicas composições que Robert Johnson legou para o repertório do gênero. Para acompanhá-lo, ele convidou uma legião de bons amigos: Steve Gadd e Jim Keltner (baterias), Nathan East e Pino Paladino (baixos), Billy Preston (piano e órgão).

O repertório procurou ser representativo com o legado de Johnson, e ainda assim incluir algumas coisas que têm sido menos exploradas no seu espólio, como If I Had Possession over Judgement Day.

Quando Clapton gravou seu disco Unplugged, já tinha feito duas reverências a Johnson, registrando Malted Milk” e Walking Blues. Os sentimentos místicos e misteriosos do blues, sua tradição de sofrimento e redenção, seu caráter de amálgama cultural. Tudo isso está na música de Robert Johnson, que Eric Clapton compreende como poucos.