Desde tempos imemoriais, pré anos 80, que a música brasileira é motivo para desacorsoamento. Nada de novo, nada inteligente, e uma insistência na mesmice, ora baseada em tentativas de se criar um rock?n?roll nacional ora na tentativa de se abusar da fatídica criatividade e produzir grupos musicais que mais parecem libertinagem irresponsável de sons. A maioria cai no insuportável – sertanejos, axés, pagodes e afins -, a minoria, fica na pobreza de espírito.

Pior, a música brasileira, nos últimos 20 anos, além de conviver com o mau gosto, faz as novas gerações se esquecerem das boas composições e dos grandes compositores do passado. Muito pior: só vale o que toca em meia-dúzia de rádios nacionais e apenas são considerados – por mídia e consumidores – aqueles que se apresentam nos hiperprogramas de auditório.

Eis que no outono do hemisfério Sul do ano da graça de 2004 me chega as mãos, três lançamentos da gravadora e distribuidora maritaca (coloque os www e com.br) -10 anos de Arismar Espirito Santo, Jazz de Senzala de Filó Machado e Jazz de Guzzi. Uma delícia. Ainda tenho esperanças com a música brasileira. A apresentação dos CDs, as capas, as descrições dos músicos e das músicas o material enviado em papel reciclado, enfim a classe e o capricho como tudo foi preparado já me conquistou. No final de semana fui analisar as músicas. O Arismar venceu, há exatos 10 anos, o prestigiado Prêmio Sharp. Ele é pouco conhecido entre a maioria dos brasileiros, mas um músico de muito bem conceituado com quem ele já tocou, de César Camargo Mariano a Dori Caymmi, passando por Hélio Delmiro, Sivuca e Raul de Souza

O CD é brilhante, além do repertório de sua autoria (Neguinha, Fulô, Seu Zezinho), Arismar visita temas clássicos da canção popular brasileira, como Lamentos (Pixinguinha/Vinicius de Moraes), Luz Negra (Nelson Cavaquinho/Amâncio Cardoso) e Linda Flor (Henrique Vogeler/Luiz Peixoto/ Candido Costa/ Marques Porto). Participações especiais de Hermeto Pascoal (piano), Jane Duboc (voz), Heraldo do Monte (guitarra), Dominguinhos (Acordeon) e Edson Montenegro (voz). Não é para qualquer um, apenas para quem gosta de música de boa qualidade.

O Filó Machado em seu nono álbum, Jazz de Senzala, carrega uma contradição no nome. Afinal, o jazz tem como característica principal a liberdade de criação do improviso, enquanto a palavra senzala representa uma oposição à liberdade. Porém, para o cantor, compositor e instrumentista, a expressão é apenas um jogo de palavras para classificar seu novo trabalho. Filó Machado já atuou em discos e shows ao lado de Michel Legrand, Jon Hendricks, Ivan Lins, Jane Duboc, Tito Madi, Flora Purim, Johnny Alf e Tim Maia. “Filó Machado é tudo que Gilberto Gil e Bobby McFerrin gostariam de ser”, elogia Léa Freire, a produtora do álbum. O improviso vocal cheio de virtuosismo e aliado ao toque do violão/guitarra, característica marcante de Filó, está presente no CD, que também me deixou embasbacado com a precisa musicalidade brasileira. Mais uma delícia.

A Guzzi é uma cantora, compositora, filha do contrabaixista Peter Woolley que, aos 39 anos está lançando seu primeiro disco, simplesmente Guzzi. Fui ouvi-lo com restrições – que as perdi logo nos primeiros acordes de Alegre Menina de Dori Caymmi e Jorge Amado, um arranjo que me lembrou nuvens, algodão doce tal o capricho da harmonia, melodia ritmo com o a voz dela. Soberbo. Não vou descrever as outras músicas, mas garanto que a cantora e seu diretor musical, Mané Silveira, produziram um disco obrigatório.

A música brasileira nos lançamentos da maritaca não vai aparecer nos Faustões da vida. Nos meios musicais, que entende do negócio, sabe que é da melhor qualidade. Eu recomendo não apenas para o público em geral, mas para todas as bibliotecas e discotecas públicas e privadas a fim de perpetuar nossa MPB.