São 22 contos curtos em que a principal característica é não se prender a nenhum padrão da lógica. Assim, Dona Tinzinha vai a uma loja de armarinhos, onde pede meio litro de botões amarelos para o pijama novo de seu filho – ela descobriu que essa cor ajuda a criança a parar de fazer xixi na cama. Ou então o irmão velho, ao ser questionado pelo mais novo sobre o que vai ser quando crescer, conta estar dividido entre preguiçólogo ou dorminhólogo. Por falar em profissões, o que dizer de Nobu Noburu, que virou psicólogo de eletrodomésticos?

São relatos assim que formam Tantãs (Moderna), novo livro infantil de Eva Furnari, autora e ilustradora exímia em atiçar a curiosidade das crianças por meio do inusitado e do bom humor. Assim, nenhum leitor deve se surpreender com a carta que uma bruxinha escreve ao Papai Noel pedindo um vestido rosa; ou como o jovem advogado que defende um passarinho. Histórias que não agridem a lógica dos pequenos que, justamente por falta de vivência, ainda não foram contaminados pelas regras de convivência. Olham o mundo com frescor, como Eva diz ao jornal O Estado de S. Paulo.

Tantãs, aliás, representa um marco em sua carreira. “Esse livro é diferente porque sobrevive sem as ilustrações. Eu já queria fazer esse tipo de trabalho há muitos anos, e agora ele amadureceu”, disse ela a Bia Reis, do Estado, em conversa realizada no estúdio da TV Estadão. “Ao longo da carreira, amadurecemos assim como o texto. Esse livro representou, para mim, como uma passagem, pois acredito agora que domino a escrita assim como dominava a imagem.”

De fato, a obra apresenta uma linguagem artesanalmente construída, que não se atém a convenções gramaticais ou sociais – encontrar a simplicidade era sua meta. E, com mais de 60 livros publicados, Eva entende perfeitamente a lição passada pelo poeta Manoel de Barros que, certa vez, disse ao Caderno 2: “A gente precisa se vigiar ao escrever. Não podemos, ao escrever, abandonar o canto, a harmonia ‘letral’. Não podemos desprezar o gorjeio das palavras”.

Italiana de nascimento, mas brasileira desde os dois anos de idade, Eva Furnari constrói uma carreira literária baseada em um conceito simples, óbvio até, mas determinante: uma história infantil só é boa quando serve a criança. Daí o cuidado extremado que se deve tomar ao simplificar (ou distorcer) a linguagem, sob a pena de sofrer uma rejeição definitiva. Na sua famosa série da Bruxinha, a escritora mostra crianças com muitos poderes (capazes de transformar príncipe em sapo, por exemplo) a fim de facilitar aos pequenos o entendimento do que são fantasmas e outros seres que nascem na imaginação.

E, em Tantãs, Eva apresenta às crianças as possibilidades de jogo que separam a literatura da linguagem comum: a liberdade de criar as conexões usuais entre as palavras, desmontar lógicas, dar espaço para inusitado. Conceitos que facilitam a esse público muito específico aceitar naturalmente personagens como Teodolito, o filho do professor de matemática que adora contabilizar tudo o que o cerca – assim, a partir de seu pequena idade, ele calcula ter escovado os dentes 7.719 vezes.

Há quem diga que os loucos são, na verdade, mais lúcidos que as pessoas sãs. O que você acha disso?

Existem loucos e loucos. Existem os loucos patológicos e esses, penso, sofrem e não tem uma lucidez consciente, apesar de conseguirem vez ou outra manifestar e expressar verdades do inconsciente. E existem também aqueles que são chamados de loucos (mesmo sem ter doença mental) pelo simples fato de não corresponderem ao modelo esperado pela sociedade. São os artistas, os criadores, as pessoas que pensam fora dos padrões e do senso comum. Esses eu acho que têm intuições lúcidas e trazem reflexões novas que as pessoas sãs não costumam trazer. Uma palavra única para falar de coisas diferentes. No caso dos tantãs do livro, acho que a “loucura” deles tem uma pitadinha dessas duas que falo acima, mas tem mais até de uma loucurinha que vem do olhar ingênuo da criança que (por desconhecimento) pode olhar o mundo com frescor. As pessoas gostam, têm saudade desse olhar puro, inesperado e sem malícia. Talvez, essa seja uma das graças do livro.

Você acredita que, nos dias de hoje, com a tecnologia “servindo” tão intimamente as pessoas, as crianças têm menos chance de agirem como tantãs, ou seja, de desmontar lógicas e lidar facilmente com o inusitado?

Gostei da definição “a tecnologia servindo” às crianças. Esse jeito de falar remete à ideia de que a tecnologia serve um prato de alimento (mental) para as crianças (e para a gente). Na minha maneira de ver, isso faz muito sentido. É como se as crianças “engolissem” um mundo de games, animações, visualizações na internet, smartphones etc. Tenho a impressão de que esse exagero de engolição (movimento de fora para dentro) intoxica a mente pelo fato de não permitir o tempo da digestão. Além disso, engolição, quando excessiva, ocupa o espaço do movimento contrário (de dentro para fora), a expressão. E, sem espaço para a expressão (sem vazio, sem silêncio, sem o pouco), não tem como brincar de pensar diferente, de criar, de experimentar o inusitado, de ser um pouco tantã para tirar as coisas do lugar comum.

O bom humor é característica essencial em um tantã? Existe tantã mal-humorado?

(Risos) Acho que existem tantãs mal-humorados, sim, mas eles podem ter a sua graça. Que nem um personagem mal humorado e com mania de perfeição de um livro infantil alemão que cortava os fios de macarrão todos do mesmo comprimento antes de cozinhar.

Você concorda com Oscar Wilde, escritor irlandês, que dizia que os loucos às vezes se curam; os imbecis, nunca?

Boa. Concordei com ele. Parece até que certo tipo de imbecil incurável anda na moda ultimamente.

E, continuando nas citações, Manoel de Barros (que, acho, adoraria ter assinado seu texto) dizia que, no osso da fala dos loucos, há lírios. Que tal?

Uau! Obrigado pelo elogio! Amo os textos do Manuel de Barros! Linda a frase dele. O inconsciente humano é um grande poeta. Se você for estudar e analisar a linguagem simbólica dos sonhos e das manifestações artísticas apresentadas pelos loucos, vai descobrir que ela é de uma beleza e de uma inteligência surpreendentes. Pura arte.

TANTÃS
Autora: Eva Furnari
Editora: Moderna (56 págs., R$ 51)

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.