A impulsividade de Deloris Van Cartier ainda surpreende Mireia Mambo Bokele, a atriz espanhola que interpreta a personagem principal de Sister Act – El Musical, como é intitulado o espetáculo na Espanha, em cartaz em Barcelona. “Ela primeiro fala e age para depois ver o resultado, que geralmente é desastroso”, conta Mireia, cuja aparência frágil se desvanece quando sobe no palco e se impõe com um verdadeiro vozeirão. “São essas atitudes impensadas que me motivam.”

Com boa experiência no palco (participou de musicais como Ragtime e O Rei Leão), Mireia se vê agora em uma nova posição. “Antes, eu fazia parte de um elenco; agora, sou a protagonista – quando entro em cena, sinto que o público e meus colegas estão de olho em mim. Ou seja, não tenho chance para errar.”

Foi por conta dessa responsabilidade que ela decidiu criar sua personagem sem influências externas, evitando assistir às interpretações de outras Deloris pelo mundo. “Até mesmo o filme eu evitei no início, pois meu estilo de humor é diferente do da Whoopi e, se você não agarra o espectador pelo riso logo no início do espetáculo, depois será difícil.”

A mesma sensação de estreante é vivida pelo veterano ator Fermí Reixach que, depois de uma longa carreira teatral, finalmente estreia em um musical. “Tenho uma voz preparada para cantar e, como não tenho tantos números solos, decidi aceitar”, comenta ele, que vive o papel de Monsenhor. Aos 68 anos, Reixach conta que uma das maiores experiências profissionais foi vivida em São Paulo, quando veio com um grupo espanhol participar do festival de teatro organizado por Ruth Escobar, nos anos 1970. “Ela era um mito entre nós por apoiar a montagem de Victor Garcia para Cemitério de Automóveis, de Fernando Arrabal, uma verdadeira transgressão estética.”

Algo também inovador é o papel vivido por Àngels Gonyalons, admirada atriz de musical, cuja carreira é marcada por espetáculos como Melodias da Broadway, Blues in the Night e Angels, escrito especialmente para ela, com coreografia de Barry McNabb (West Side Story). “Interpretei tantos tipos diferentes, mas jamais empunhei um hábito e vivi uma freira que se divide entre o rigor exigido pela religião que abraçou e a necessidade de mudar e evoluir”, conta Àngels, intérprete da Madre Superiora, a única entre as freiras a relutar contra transformação pregada por Deloris. “Essa indefinição se verifica também nas canções, ora religiosas, ora mais próximas do soul.”

A presença de Àngels no elenco é um sinal de prestígio para a montagem de Sister Act, pois ela é considerada uma pioneira no gênero na Espanha – fundou, por exemplo, a Memory, primeira escola de teatro musical do país, fonte inspiradora para outras agora no mercado.

O sucesso de Sister Act aliviou os produtores – a venda antecipada esquentou logo depois da estreia, no fim de outubro. “Madri normalmente abraça mais os musicais que Barcelona, cidade onde esse gênero costuma não atrair tanto público”, observa o diretor musical Arnau Vilá.