“Se Deus tivesse pedido os seus conselhos, o mundo seria, certamente, muito melhor…”

Ademar Ferreira dos Santos – Diretor do Centro de Formação Camilo Castelo Branco (Portugal)

Só há muito pouco tempo ? tardiamente, melhor dizendo ? descobri Rubem Alves. “Que pena! Quanto tempo perdido!”, como diria o próprio. Eu já ouvira falar dele, é verdade, mas, relapso e teimoso, não me preocupara em conhecê-lo mais de perto, saber o que dizia e o que pensava.

Também já vira nas prateleiras da Saraiva a bem sortida coleção de títulos chancelados pelo seu nome. Mas ? maldita arrogância! ? continuei a ignorá-lo solenemente. O azar foi meu.

Uma noite, finalmente, a televisão apresentou-me Rubem Alves. Foi no “Roda Viva”, da Cultura de São Paulo, conduzida pelo Paulo Markum. Lá estava o Rubem no centro da roda, alegre, simpático e faceiro, falando sobre os temas que tanto adora: educação, crianças, poesia, literatura e vida. Foi amor à primeira vista.

Depois, vi-o novamente no “Aqui Entre Nós”, da nossa TV Paraná Educativa, desfilando a simplicidade dos sábios, fazendo amigos e conquistando admiradores. Mas aí eu já tomara vergonha e havia me tornado seu leitor e admirador. Hoje, posso me vangloriar de haver lido (até agora) dezoito livros da sua extensa bibliografia ? uma quantidade ínfima diante de uma obra de quase 100 títulos. Mas, a conselho do próprio autor, prefiro lê-lo (e relê-lo) devagar, sem nenhuma pressa, entremeando a leitura com reflexões, para não atropelar o prazer e afetar o sabor, na linha de ensinamento de Schopenhauer ? tão citado por Rubem ?, segundo o qual a leitura só é boa quando bovina, isto é, quando leva à ruminação. E a leitura de Rubem Alves faz bem à saúde, traz felicidade e sabedoria, rejuvenece.

Rubem nasceu em Boa Esperança, MG, “aquela cuja serra Lamartine Babo imortalizou numa canção”, em setembro de 1933. Andou pelos caminhos dos deuses: estudou teologia no Seminário Presbiteriano de Campinas, SP; fez mestrado no Union Theological Seminary, de Nova York; doutorou-se em filosofia pelo Princeton Theological Seminary; é psicanalista pela Associação Brasileira de Psicanálise de São Paulo; e foi pastor protestante. Depois, confessa ter ficado mais modesto e passou a andar nos caminhos dos heróis: militou na política, esteve na lista dos procurados pelo golpe militar de 1964 e foi professor livre-docente da Unicamp. Quando os seus “deuses e heróis morreram”, como assinala, seguiu o caminho dos poetas, dos pensadores e das crianças: virou escritor e cronista (tem uma coluna dominical no jornal Correio do Povo, de Campinas, SP, e publica trabalhos esparsos na Folha de S.Paulo). Mas é, sobretudo, um avô que adora brincar e compartilhar pensamentos: uma extraordinária figura humana, que ama a beleza, a natureza, as netas, os jardins e os pássaros, a sabedoria das crianças, o vento fresco da tarde, os ipês floridos, o outono, os animais, os campos e os cerrados, o mar e as montanhas, o orvalho sobre a teia de aranha e os pores-do-sol.

As palavras de Rubem Alves são lições de vida. Suas crônicas emocionam e fazem-nos pensar. Às vezes é irônico e bem-humorado; outras vezes, lírico e romântico; e outras mais, crítico e até mordaz. Mas sempre inteligente, humano e sincero. E é capaz de, com toda a simplicidade, construir verdades eternas, de grande significação. Uma delas: “Minas não tem mar. Mas Minas tem céu. E o céu é o mar de Minas”. Precisa dizer mais?

Haverão de me acusar ? como já fizeram alguns maledicentes apressadinhos, com desconhecimento de causa ? de excesso de admiração. Aceito a pichação, com prazer e uma ponta de vaidade, pois só não admira, respeita e quer bem Rubem Alves quem ainda não teve a glória de desfrutar do pensamento dele e das suas aulas de viver.

Com vocês, Rubem Alves, um intelectual que orgulha o Brasil e os brasileiros. Surpreendam-se, aprendam e encantem-se com ele. Aqui está uma pequena mostra do seu pensamento, manifestado através de preciosos aforismos, parábolas e metáforas:

Alegria

“A alegria não mora no futuro, mas só no agora. Ela está lá, modesta e fiel, no espaço da casa, no espaço da rua. Se não a encontramos, não é culpa dela. É culpa nossa.”

Amizade

“A beleza da poesia, da música, da natureza, as delícias da boa comida e da bebida perdem o gosto e ficam meio tristes quando não temos um amigo com quem compartilhá-las.”

“A experiência da amizade parece ter suas raízes fora do tempo, na eternidade. Um amigo é alguém com quem estivemos desde sempre.”

Amor

“Mesmo aqueles em quem a chama apagou sonham ouvir de alguém, um dia, as palavras de Heine escreveu para uma mulher: “Eu te amarei eternamente e ainda depois’. (…) A arte de amar é a arte de não deixar que a chama se apague.”

Árvores

“As árvores sabem que a única razão da sua vida é viver. Vivem para viver. Viver é bom. Raízes mergulhadas na terra, não fazem planos de viagem. Estão felizes onde estão. Enfrentam seca e chuva, noite e dia, chuva e calor, com silenciosa tranqüilidade, sem acusar, sem lamentar. E morrem também tranqüilas, sem medo. Ah, como as pessoas seriam mais belas e felizes se fossem como as árvores!”

Bares

“É verdade que os bares já foram lugares de perdição. Eram não o lugar onde as pessoas se perdiam, mas o lugar onde os que se haviam perdido em outros lugares vazios de alegria tentavam encontrar a alegria perdida.”

Beleza

“Um único momento de beleza e amor justifica a vida inteira.”

“Não existe coisa mais linda que uma copa de ipê contra o céu azul. Cessam todos os pensamentos ansiosos e a gente fica possuído por pura gratidão de que a vida seja generosa em coisas belas.”

Casamento

“Falta ainda um passo para que a felicidade dos cônjuges seja completa: a criação do casamento com separação de males.”

Cidades

“As cidades voltarão a ser bonitas quando os motoristas compreenderem que o natural é andar a pé.”

Coisas pequenas

“Divina é a gota de orvalho, uma amora roxa, uma cambalhota de tiziu, um raio de sol numa teia de aranha, a cor de uma joaninha, um bombom, uma bolinha de gude, um amigo, uma acertada de bilboquê: coisas pequenas, sem preço. Como você.”

Coragem

“Viver a vida, aceitando o risco da morte: isso tem o nome de coragem. Coragem não é ausência de medo. É viver, a despeito do medo.”

Crepúsculo

“O crepúsculo faz chorar. A beleza faz chorar. Choramos porque o crepúsculo somos nós. Somos belos e efêmeros como o crepúsculo. O crepúsculo nos dá lições sobre o nosso ser.”

Criança de rua

“Houve uma autoridade que determinou que as crianças fossem retiradas da rua e devolvidas aos seus lares. Ela não sabia que, se as crianças estão nas ruas, é porque as ruas são o seu lar. Nos semáforos, de vez em quando, elas encontram olhares amigos.”

Crianças e adultos

“A contemplação de uma criancinha amansa o Universo.”

“Os olhos dos adultos, havendo se enchido de saber, e havendo, portanto, perdido a capacidade de ver das crianças, olham sem nada ver…”

Democracia

“Uma sociedade democrática entre lobos é possível, porque existe equilíbrio de poder entre os lobos. Uma sociedade democrática entre cordeiros é possível, porque existe equilíbrio de poder entre os cordeiros. Mas não é possível uma sociedade democrática onde haja lobos e cordeiros. Os lobos sempre devorarão os cordeiros…”

Deus

“O Natal é um poema. Nele Deus se revela como criança. O Deus adulto é terrível: grave, sério, não ri, não dorme, seus olhos estão sempre abertos e nem sempre têm pálpebras, jamais esquece, e registra tudo nos seus livros de contabilidade, que serão abertos no Dia do Juízo para o acerto final de contas. O Deus adulto dá medo. Nele não há amor. (…) Prefiro o Deus criança. No colo de um Deus criança eu posso dormir tranqüilo.”

Educação

“É um equívoco pensar que com mais verbas a educação ficará melhor, que os alunos aprenderão mais, que os professores ficarão mais felizes. Como é um equívoco pensar que, com panelas novas e caras, o mau cozinheiro fará comida boa. Educação não se faz com dinheiro. Educação se faz com inteligência.”

“A democracia só é possível se o povo for educado. Mas ser educado não significa ter diploma superior. Significa ter a capacidade de pensar.”

“Nossas universidades são avaliadas pelo número de artigos científicos que seus cientistas publicam em revistas internacionais em línguas estrangeiras. Gostaria que houvesse critérios que avaliassem nossas universidades por sua capacidade de fazer o povo pensar. Para a vida do país, um povo que pensa é infinitamente mais importante que artigos publicados para o restrito clube internacional de cientistas.”

Envelhecer

“Velhice é o tempo da verdade da alma. Os velhos terão rosto de criança se a criança eterna continuar viva dentro deles.”

“Quando o olho do divino e eterno se abre, descobrimos que somos velhos não por causa do tempo que passa, mas porque dentro de nós moram eternidades.”

Escolas

“Há escolas que são gaiolas. Há escolas que são asas. Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do vôo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são pássaros em vôo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o vôo, isso elas não podem fazer, porque o vôo já nasce dentro dos pássaros. O vôo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado.”

Homens-bomba

“Homens estranhos os tais homens-bomba. Mas respeito-os. Matam-se e matam porque acreditam numa causa. Sacrificam-se por um ideal. Se o ideal está errado, não vem ao caso. (…) Em Campinas não há terroristas. Ninguém mata ou morre por um ideal. Mata-se e morre-se por dinheiro.”

Homens de negócios

“Assim funciona a cabeça dos ativos empresários: no seu mundo de negócios não há lugar nem para a beleza inútil, nem para o tempo lento da vida. Tudo deve ser transformado em lucro.”

Insignificâncias

“Por que é que os poetas são assim tão ligados às insignificâncias? Porque é com insignificâncias que a vida é feita.”

Inteligência e sabedoria

“É importante saber a diferença entre inteligência e sabedoria, freqüentemente confundidas. A inteligência é a nossa capacidade de conhecer e manipular o mundo. Ela tem a ver com o poder. A sabedoria é a graça de saborear o mundo. Ela tem a ver com a felicidade.”

Gramática e literatura

“Meu conselho aos jovens: se vocês quiserem passar no vestibular, estudem gramática, empreguem mesóclises, escrevam “fi-lo porque qui-lo’ e não leiam literatura. Mas se vocês quiserem sentir o delírio da leitura, se quiserem fazer amor com as palavras e experimentar os orgasmos da língua, deixem as leis da gramática de lado e aprendam a música das palavras.”

Lugares santos

“Pessoas religiosas fazem longas e penosas viagens, peregrinações, para visitar lugares santos. Não há lugares santos. Dizer que um lugar é santo, que ali o sagrado está mais presente do que em outros, é dizer que há lugares em que Deus está menos presente, como se Ele os tivesse abandonado.”

Morte

“Quero ter a felicidade de poder conversar com meus amigos sobre a minha morte. Um dos grandes sofrimentos dos que estão morrendo é perceber que não há ninguém que os acompanhe até a beira do abismo. Eles falam sobre a morte e os outros logo desconversam. “Bobagem, você logo estará bom…’. E eles então se calam, mergulham no silêncio e na solidão, para não incomodar os vivos. Só lhes resta caminhar sozinhos para o fim. Seria tão mais bonita uma conversa assim: “Ah, vamos sentir muito a sua falta. Pode ficar tranqüilo: cuidarei do seu jardim. As coisas que você amou, depois da sua partida, vão se transformar em sacramentos: sinais da sua ausência. Você estará sempre nelas…’. Aí os dois se darão as mãos e chorarão pela tristeza da partida e pela alegria de uma amizade assim tão sincera.”

Natureza

“Penso que a Natureza sonha. Montanhas, florestas, mares, ares, lagos, nuvens, cachoeiras, animais flores ? todos sonham um mesmo sonho. Sonham que chegará um dia em que os seres humanos desaparecerão da face da terra. Quando isso acontecer, será a felicidade. A Natureza estará, finalmente, livre dos demônios que a destróem. A Natureza, então, tranqüilamente, sem pressa, se curará das feridas que nós lhe causamos.”

Orações

“Será que Deus gosta de ouvir repetições? Se ele gosta de ouvir repetições, perdeu o meu respeito. Imagine que um filho meu viesse me visitar e ficasse repetindo: “Meu pai, você é maravilhoso!; meu pai, você é maravilhoso!; meu pai, você é maravilhoso!’… É um elogio, é claro. Mas eu concluiria logo que ele perdeu o juízo e enlouqueceu.”

Ouvir

“Para ouvir não basta ter ouvidos. É preciso parar de ter boca.”

Pensar

“É do desenvolvimento da capacidade de pensar que se forma um povo. Povo que não sabe pensar fica à mercê das mentiras.”

Política

“Os povos são construídos com os sonhos. Aqueles que partilham sonhos se dão as mãos e caminham juntos. E esse é, precisamente, o início da política, que poderia até ser definida como a arte de administrar os sonhos de um povo.”

Povo

“De vez em quando, raramente, o povo fica bonito. Quando isso acontece, surge a esperança. Mas para que esse acontecimento raro aconteça é preciso que um poeta entoe uma canção e o povo escute: “Caminhando e cantando e seguindo a canção…”

Problema

“Quando se tem um problema a ser resolvido, tem-se um problema a ser resolvido. Quando ao problema a ser resolvido se acrescentam lamúrias e lamentações, têm-se dois…”

Sapiência

“A sabedoria, sem dúvida alguma, é mais importante que a ciência. O conhecimento científico nos dá poder, meios para viver. Mas é só a sabedoria que nos dá as razões para viver.”

Saudade

“A saudade é a nossa alma dizendo para onde quer voltar.”

“Saudade é a presença de uma ausência.”

Solidariedade

“A solidariedade me faz sentir sentimentos que não são meus, que são de um outro.”

Sonhos

“A beleza do sonho é a comida que mantém a vida do povo.”

“O sonho existe no espaço vazio da ausência da coisa desejada.”

Tempo

“É a eternidade que dá sentido à vida.”

“O tempo é circular. O que foi perdido retorna. O que vem vindo é o que já foi.”

Viagem

“Viajar é fácil. O difícil é a gente desembarcar da gente mesmo.”

Vida

“A chama de uma vela é metáfora da vida. A vida é uma vela que se consome iluminando…”