Nada a ver com A Educação Sentimental do francês Gustave Flaubert. Mas foram anos elaborando o que viria a ser o novo filme de Júlio Bressane, que estreia sexta-feira, 6, no Rio e em São Paulo. “Já tenho experiência suficiente para saber que não devo me meter com o filme. Tenho sempre alguma coisa que me é dada, uma cena, uma imagem. No caso de Educação, era uma imagem arcaica, Endimião adormecido e seu corpo banhado pela Lua. Depois me veio essa mulher dançando. Imaginei-a madura e ligada a um garoto, mas um garoto que possui uma qualidade essencial. Ele sabe ouvir…”

Como Bressane gosta de dizer, ele vai atrás daquilo que o intriga, mas procura não se meter com o filme. “Existe uma coisa básica que é a questão do enfraquecimento das palavras, do discurso básico. Evito direcionar coisa alguma porque parto do princípio de que é precioso falar algo. As coisas são ditas para serem compreendidas.” E foi assim que se construiu a figura de Áurea em Educação Sentimental. É melhor falar na personagem que na história, porque, se a gente insistir muito na trama, o espectador verá o novo Bressane esperando uma linearidade que ele não vai dar.

“Devo esse filme, mais até que os outros, ao produtor Marcello Maia. Educação tem algo parecido com a pintura antiga, de ateliê. Foi feito por muitas mãos e o Marcelo foi quem organizou todas essas forças para trabalhar no filme. Quem me conhece, sabe que faço cinema de improviso. Mas, para chegar aí, você tem de fazer as coisas contra você, evitar as coisas de que gosta. Se fosse para fazer só aquilo de que se gosta, não seria necessário fazer. É como ir para uma terra desconhecida.”

Áurea, a protagonista de Educação Sentimental, é uma mulher com um dom humano arcaico. “Ela consegue colocar as entranhas em contato com as estrelas, e isso se faz através da dança.” Por isso, Bressane procurou não exatamente uma atriz, mas uma dançarina – Josie Antello.

“Existem cerimônias religiosas que colocam o participante numa relação cósmica. Ou melhor, existiam. Criavam um elo entre você e o cosmo, mas essa foi uma força que se perdeu e que o cinema pode ajudar a recuperar. O filme tem um pouco a sonoridade desse atrito das entranhas com as estrelas. Tem uma mancha de fundo que é a questão da divindade, do amor proibido, do amor de um imortal pelo mortal. Áurea fala, seduz pela palavra, e o garoto escuta. E aí surge a questão da mãe, que cria o desacerto. A mãe é o humano. Tudo o que ela diz e pensa são as coisas humanas. A mãe quer comer o filho, quer comer a empregada. Isso é coisa humana, e é o que quebra o encanto, revela que o menino é humano. O filme é sobre o encantamento e a sua perda.”

EDUCAÇÃO SENTIMENTAL – Direção: Júlio Bressane. Gênero: Drama (Brasil/2013). Classificação: Não divulgada.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.