De caminhoneiro a cineasta cult, esta foi a trajetória de Ozualdo Ribeiro Candeias (1922-2007), agora retratada em ótimo documentário de Eugênio Puppo. “Ozualdo Candeias e o Cinema” é obra de alguém que já realizou uma retrospectiva completa do diretor e, portanto, conhece seus filmes como a própria casa. Também os admira. Mas o documentário vai além do registro de vida e de uma admiração de estudioso: traça também um retrato do ambiente em que a obra de Candeias se realizou, a famosa Boca do Lixo paulistana, que, com o passar dos anos, se tornou uma espécie de utopia cinematográfica brasileira, em especial para as gerações mais jovens.

Os materiais de construção deste documentário são trechos, às vezes muito extensos, de obras do diretor e falas gravadas em entrevistas. A música compõe-se de sobras da trilha sonora do primeiro filme do diretor, composta pelo Zimbo Trio. Evita-se a intervenção de especialistas, como se não se quisesse intermediários entre o público e o seu personagem.

Compreende-se. Candeias – e o tipo de cinema que fez – costuma prestar-se a preconceitos e mal-entendidos. É tanto endeusado como destratado, dependendo do gosto do freguês.

No resgate desse legado, Puppo é bastante minucioso e inclusivo. Abarca os trabalhos de Candeias dos primeiros documentários, como “Tambaú, Cidade dos Milagres” (1955) a “O Vigilante” (1992), último longa. É uma filmografia bastante valorizada a partir de “A Margem” (1967), seu primeiro longa-metragem de ficção, que, na prática, dá norte e nome ao que seria conhecido na historiografia como “cinema marginal”. O próprio Candeias comenta o filme e, de maneira simples, diz que o cinema nacional estava acostumado a retratar pessoas da classe média e ele queria ver na tela uma parcela da sociedade que não tinha vez. Nem no cinema e nem na vida. Os marginalizados, o lúmpen.

E assim nasce “A Margem”, filme que, com sua inspiração, sua foto em preto e branco contrastado, personagens crus e sem qualquer concessão a uma estética ornamental, exibiria o poder de um soco no já acomodado panorama cultural nacional da época. Nas vésperas do AI-5, os mais jovens buscavam caminho alternativo entre o super ego político representado pelo Cinema Novo e uma estética que lhes parecia nada menos que “burguesa”. Candeias, um tipo popular, sem firulas intelectuais, que chegava à direção sem qualquer cerimônia e estreava com obra tão poderosa, servia de inspiração. E mesmo como guru, posição que ele enfaticamente se negaria a ocupar.

Mesmo porque, ouvindo o que tem a dizer dos seus filmes, dificilmente se poderia colocá-lo em qualquer pedestal. Por exemplo, ao falar de um dos seus títulos de impacto, “A Herança” (1971), diz que levou aos produtores a ideia de aclimatar Shakespeare ao mundo rural brasileiro – universo que ele conhecia muito bem, natural que era de Cajubi, interior de São Paulo. Mas, como comenta, ninguém se interessou por essa versão cabocla de Hamlet e cultores do Bardo acusaram-no de traição à obra original.

No entanto, “A Herança” contém soluções muito originais – por exemplo, no diálogo do protagonista com uma caveira de burro, monólogo famoso do “to be or not to be” dito em tom sarcástico. Ou na denúncia do crime contra o pai que, em Shakespeare, se dá numa peça encenada dentro da peça e, em Candeias, vira saborosa e comovente moda de viola que descreve o delito e aponta os culpados.

Ao mesmo tempo em que repassa a obra, o filme de Puppo retrata o ambiente em que se movia o artista, tendo por núcleo a mitológica Rua do Triumpho (era assim que se escrevia) com seus personagens. Pio Zamuner, Eliseu Fernandes, o crítico Jairo Ferreira, o fotógrafo Aloysio Raulino, o ator Davi Cardoso e as muitas e muitas mulheres que perambulavam por aquela e outras ruas do centro velho de São Paulo.

Alguns points preferenciais aparecem nessas memórias fílmicas, mas nenhum deles mais que o Bar Soberano, ponto de encontro do pessoal do cinema, das garotas de programa, de atores e atrizes, dos funcionários do comércio local, de pedintes e marmiteiros. Na Rua do Triunfo e imediações, empresas cinematográficas eram vizinhas de hotéis de alta rotatividade. Mesmo uma major americana lá tinha sede até meados dos anos 1990, quando então se mudou para um espigão espelhado na região da Berrini. Eram tempos em que as latas dos filmes eram transportadas em carrocinhas puxadas por homens, e mulheres inteiramente nuas, ou de calcinha e sutiã, falavam tranquilamente nos orelhões, enquanto empregados do comércio, com suas pastinhas executivas, circulavam ao lado como se nada houvesse. Veem-se essas imagens em fotos e num belo documentário de Candeias, Uma Rua chamada Triumpho (1971).

Como nem sempre (quase nunca) o autor é a pessoa mais indicada para falar de sua obra, é interessante notar o que existe de inovador e poético nas imagens dos filmes em contraste com os prosaicos comentários de Candeias. Essa dissonância entre obra e autor não é o menor dos encantos deste Ozualdo Candeias e o Cinema. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

OZUALDO CANDEIAS E O CINEMA

Direção: Eugenio Puppo. Gênero: Documentário (Brasil/2013, 103 min.). Classificação. 18 anos