Uma das estantes de livros
que aguardam a recuperação.

Junto com as novas tecnologias da informação, o livro segue majestoso seu percurso. Seduz o leitor e o ajuda a estabelecer comunicação com mundos imaginários e reais. Diverte e instrui. Possibilita grandes viagens, meditações e aprendizagens diversas. A atração que o livro suscita é tanta que aproximadamente 3.000 usuários de todas as idades visitam diariamente a BPP – Biblioteca Pública do Paraná e emprestam em média 1.600 livros.

No entanto, do total dos livros emprestados na BPP, ?0,5% não são devolvidos e, mensalmente, 10 livros são extraviados; três são devolvidos com danos aparentes e precisam ser reposicionados e 500 livros danificados vão para a Divisão de Preservação da BPP?, explicou Bety de Luna, chefe de Divisão da Preservação, especialista em conservação de bens culturais móveis.

Irene Falkowski: ?É muito
difícil sua recuperação?.

Dos problemas mais comuns em livros emprestados, 70% retornam com costuras rompidas, colas quebradas, páginas e capas soltas ou danificadas, com fitas adesivas colocadas pelos usuários; 28% dos livros de brochura ou de capa dura, composto por folhas soltas, retornam com o lombo descolado e 1% dos livros retornam com páginas arrancadas e figuras cortadas.

Para Luna, isso ocorre em primeiro lugar pela falta de informação, em segundo lugar devido ao manuseio inadequado, em terceiro lugar por negligência e em quarto lugar pelo vandalismo.

Trabalham na Biblioteca Pública do Paraná 109 funcionários e 92 estagiários. Na Divisão de Preservação são 12. Seis trabalham com a recuperação de obras gerais, duas no setor de desinfestação/higienização, duas na seção de encadernação, uma na microfilmagem e uma estagiária que presta diversos auxílios.

Bety de Luna: ?Aconscientização
dos usuários é fundamental?.

Nas sessões de obras gerais da biblioteca os livros danificados são reunidos e encaminhados para o setor de recuperação do acervo. Embora a Divisão de Preservação consiga recuperar 300 livros por mês, 10.000 livros esperam para ser consertados. Para resolver o problema da recuperação do acervo, se fosse possível e houvesse espaço seriam necessárias 25 pessoas, disse Luna.

Irene Falkowski diz que embora se sinta bem por estar recuperando livros, por ser um trabalho gostoso, acha que é necessário que as pessoas prestem mais atenção ao livro, porque a sua recuperação é muito difícil.

Marise Nogaroli de Freitas diz: sempre gostei de fazer serviço de artesanato, é gostoso fazer a recuperação, mas seria bom que os usuários tivessem mais cuidado em conservar o livro.

Elcy Terezinha Rosa Ribas, que trabalha há 11 anos no restauro, afirmou gostar de fazer o trabalho, só que as pessoas não colaboram muito, porque rasgam muitas páginas, danificam as encadernações, acha que precisam cuidar e dar mais atenção aos livros porque são úteis para eles mesmos.

Vera Lúcia Nogueira diz que sente dó ?porque a gente pega o livro que está em estado de calamidade e a gente vai limpando e quando vê está fazendo a capa dele; o livro fica 90% novo. Mas seria bom que não precisasse fazer recuperação por falta de cuidado; o povo judia demais. As pessoas deviam ter mais carinho, cuidar para não sujar as páginas. Eu já achei até resíduos de alimentos em suas páginas, então eu peço que as pessoas leiam no lugar certo, não na cozinha, nem na hora da refeição?.

Bety de Luna ressalta que a conscientização dos usuários é fundamental, ?quanto mais conservarem os livros, mais tempo estarão disponíveis; quanto maior é o número de livros degradados, maior será o tempo de espera dos usuários para empréstimo. Muitas pessoas reclamam porque um determinado livro nunca está na estante, respondemos que não damos conta de recuperar tantos livros assim. Damos sempre prioridade às solicitações dos usuários?.

Se o leitor sentir vontade de ajudar, terá algumas opções: para trabalhar na Biblioteca Pública do Paraná deve participar de concurso público e passar por um treinamento técnico de três meses, no mínimo, para que passe pela aprendizagem de como agir diante de vários problemas apresentados pelos livros e possa solucioná-los. Mas tanto pessoas como empresas podem ajudar com materiais para preservação. Basta informar-se pelo telefone 3221-4973.

Para Luna, é urgente a contratação de novos funcionários. Ela enfatiza que ?na Biblioteca Pública do Paraná é urgente um novo concurso para que venham pessoas novas, porque temos pessoas que estão se aposentando, estamos perdendo funcionários, a biblioteca vive em função praticamente de estagiários, dependemos da boa vontade dos estagiários para muitas coisas. Então, se tivéssemos concurso que abrisse vagas para mais funcionários seria muito importante?.

A BPP não realiza campanhas periódicas para conscientizar a população sobre o tema. Procura transmitir a importância da preservação do material bibliográfico através de entrevistas, reportagens, Bibliotur (atendimento a visitas monitoradas) e cursos/palestras. Não há um projeto permanente para as escolas por iniciativa da BPP. São as escolas interessadas que devem entrar em contato com a BPP para agendar o Bibliotur.

As visitas devem ser previamente agendadas: Crianças até a 4.ª série do ensino fundamental Seção infantil, fone: 3221 4980

Estudantes a partir da 5.ª série e visitantes em geral, Seção de Referência e Informação, fone: 3221-4978.

Mas a iniciativa, além das escolas, pode ser empreendida por qualquer voluntário. A Biblioteca Nacional, por exemplo, tem a campanha ?Salve um livro?, que convoca o leitor, o amigo da biblioteca, a contribuir financeiramente para que se recupere um livro a mais.

Lembra-se também a interpelação da campanha da Unisinos -Universidade do Vale do Rio dos Sinos, em São Leopoldo, na região de Porto Alegre-RS, que questiona o usuário: ?Qual sua opinião sobre quem destrói um livro??, e completa com a advertência: ?Não deixe ninguém pensar isso de você?.

Zélia Maria Bonamigo é jornalista, escritora, mestre em Antropologia Social pela UFPR, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná.

zeliabonamigo@terra.com.br