Lançando seu olhar certeiro sobre a condição humana, em tudo o que esta tem de oculto e ambíguo, Dalton Trevisan apresenta, em Pico na Veia (Ed. Record, 112 páginas), contos curtos e secos, construídos com a típica ironia cortante e humor cáustico. O livro é uma coletânea de histórias que retratam a realidade do Brasil de hoje, os desastres do amor, os infernos particulares, a guerra dos sexos, as cenas da vida cotidiana, a condição humana.

Mais uma vez, Dalton Trevisan acerta o alvo, lançando um olhar objetivo sobre a condição humana, em tudo o que esta tem de oculto e ambíguo. São textos enxutos que retratam a realidade do Brasil de hoje, onde a miséria, o desemprego e o desespero diante da desesperança provocam suicídios, humilhações, medo, amargura e exploração sexual – particularmente das mulheres -, numa ficção de primeira qualidade.

Pico na Veia é uma coletânea composta de cerca de duzentos contos. Alguns mais longos, mas, em sua maioria, o livro é uma sucessão de miniestórias. Nelas, os temas recorrentes de Trevisan reaparecem: os desastres do amor, os infernos particulares, a guerra dos sexos, as cenas da vida cotidiana, a condição humana. Tudo composto com uma quase avara escolha de palavras, só perdoada pela acuidade poética dos melhores haicais. Nada se perde na preciosa essência de suas tramas.

0 autor curitibano – considerado pela crítica como o escritor que melhor soube dar dignidade aos sentimentos humanos – mostra que menos é mais. Com apenas algumas palavras e outros sinais gráficos, transmite todos as aflições de homens e mulheres.

O silêncio

De Dalton Trevisan, pessoa, pouco se sabe. Ele guarda a sete chaves sua intimidade, não dá entrevistas, não se deixa fotografar, provocando frustração em muitos pela sua recusa irrevogável. A quem lhe pede entrevistas, responde que, para saber mais de sua vida, basta ler seus livros. Ele ali está de corpo e alma. E, em Pico na Veia, mais uma faceta de seu caráter é revelada.

No dia 14 de junho de 1925, nasce Dalton Trevisan. Em Curitiba, é claro. A mesma Curitiba em que cresce e ganha a fama de “vampiro”. A mesma Curitiba que eternizou em tantos contos – e que, justamente por isso, tem com ele um débito eterno. A mesma Curitiba cheia de mistérios. O próprio escritor é um deles: para se conceber um histórico de Trevisan, é preciso a habilidade das cerzideiras, cozendo retalhos aqui e ali, em uma ou outra reportagem, nas antigas e raras entrevistas. Fotos, só de arquivo ou tiradas à sua revelia.

Hermético, há anos não fala com a imprensa. Não por briga. Talvez por excentricidade. Certamente por direito. Toda informação sobre o autor é breve e autônoma, retalho que se une a outros para formar uma peça homogênea – tal como muitos de seus livros. Na adolescência, sonhava em ser campeão de atletismo, particularmente na prova dos 110m com barreiras. Formado em Direito, exerceu a função de repórter policial e crítico de cinema. Um acidente com o forno de uma olaria, em 1945, quase lhe tira a vida. Trevisan foi internado com fratura de crânio, mas se recuperou para editar, a partir do ano seguinte, a revista Joaquim, que duraria até 1949.

Em 1950, vai para a Europa. Casa-se em 1953, tornando-se pai de duas filhas. Escondeu-se no anonimato para vencer o Concurso de Contos no Paraná, em 1968, promovido pelo então governador Paulo Pimentel.

Gosta de filmes de bangue-bangue e de passear pelas ruas da capital paranaense.

Já teve livros traduzidos para diversos idiomas, como o inglês, o espanhol e o italiano. Na Hungria, alguns de seus contos inspiraram uma série de TV. No Brasil, teve textos adaptados para o cinema e a televisão. Seus livros são editados pela Record desde 1978. Talvez isso baste. Se não, vale a recomendação do próprio autor, que garante ser sua obra seu melhor currículo.