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Dalton Trevisan se prepara para lançar novo livro

Desta vez, os contos do Vampiro sairão pela editora gaúcha LP&M

  • Por Tribuna Pop

Edílson Pereira

Uma nova seleção de textos escolhidos do escritor curitibano Dalton Trevisan, tirada de livro publicado pela Editora Record, está saindo na coleção Pocket da L&PM (Frufru Rataplã Dolores, 2012, 117 páginas). Esta coleção é uma saudável iniciativa da editora gaúcha com o objetivo de popularizar e tornar acessível a leitura nos sombrios tempos de internet em que ninguém tem tempo para nada, além de conferir o facebook. São livros pequenos, baratos e com textos de qualidade, de grandes escritores. Um serviço em prol da cultura e da inteligência.

O livro de Dalton Trevisan (cujo título é retirado do primeiro de uma série de onze contos), com desenho de Poty na capa, é o de número 1062. O escritor paranaense já emplacou outros oito títulos na coleção. Falar do livro para quem conhece Trevisan é chover no molhado: o bom Trevisan está todo lá, com suas mulheres ordinárias ou sofridas e seus velhos safados ou humilhados, dentro de uma Curitiba dissimulada.

Os contos mostram seres às vezes cruéis, às vezes ambíguos, ora arrogante, ora capachos, carrascos às vezes, outras humilhantes, quase sempre mesquinhos, que regurgitam dentro de uma cidade faceira, discreta e educada – belo cartão postal, que já foi vistoso. Para quem não conhece ou tem pouca intimidade com a obra do escritor, a sugestão é simples: pegue, leia e terá boa iniciação ao universo do Vampiro de Curitiba. Os títulos de contos e dos livros de Dalton Trevisan são quase obra à parte. Os deste livro não fogem à regra: Noventa cigarros por dia, O quinto cavaleiro do apocalipse, João é uma lésbica e O caniço barbudo, entre outros.

Alguns contos são longos (para os padrões de Dalton Trevisan, claro). Outros são curtíssimos. Neste caso, basta conferir A última ceia, na realidade um título que enfeixa várias peças curtas e cortantes, que tratam de temas inocentes quanto peixinhos num aquário ou densos e cheios de rancores e sofrimentos quanto a relação entre a putinha e o velho num quarto de hotel. Só esta peça vale a pena o livro. O volume termina com o belo conto O anão e a ninfeta, que deu título a um dos últimos livros do escritor. Enfim, são onze contos, bela seleção sedutora, que chama o leitor, gemendo de impaciência: “Vem cá, amorzinho… vem cá, meu bem… vem cá, benzinho… ó você, aí, ó zarolho, vem cá… ó belezinha, vem cá…”. Tudo isto é Dalton Trevisan. A questão é uma só: você vai resistir?

A última ceia

– O velho telefonou: Venha amanhã receber a mesada. Não quis dar o gostinho:

– Amanhã não posso.

– Quando então?

– Depois de amanhã. Duas e meia.

– Te espero.

Ele não estava. No salão a moça aguardou dez minutos. Já irritada. Chegou ofegante, arrastando a perninha:

– Vamos subir.

– Por que subir?

– O dinheiro está lá em cima.

Relutante, quis se negar. Quarto de hotel não é para encontro amoroso?

– Está bem.

No elevador, só os dois, sentiu o conhaque no bigode amarelo.

Ele abriu a porta – a cama de casal. Tirou o paletó e pendurou na cadeira. Ela ficou de pé, sem largar a bolsa. Descansou a sombrinha na cama. Do bolso o doutor sacou o envelope e, em vez de entregar, lançou sobre a mesa. Ali a garrafa pela metade com dois copos.

Era gesto de desprezo? Ofendida, o rosto em fogo, depois lívido. Mordeu o lábio, apanhou o dinheiro, guardou na bolsa.

– Só por meus filhos aceito este maldito dinheiro.

– Ah, é? E para os teus machos o que eu sou? O velho coronel?

– Não sou vagabunda. E, se for, tenho quantos machos quiser.

– Então o que é?

– Pois bem. Eu sou. Puta de rua. Puta rampeira e fichada.

– Você é uma atrevida.

– Puta de todos os machos. Menos de você.
<,br />O velho encostou-se na porta e abriu os braços – um elástico branco em cada manga.

– Daqui você não sai.

– Mais nada entre nós, André.

– É a despedida. Última vez.

– Não e não. Tudo acabado.

Avançou furiosa, dedinho em riste:

– Olhe, doutor. Sabe o que você é?

Ergueu-se na botinha, encostou o dedo na ponta vermelha do narigão:

– Um grande coronel manso!

– Não esqueça, menina. Cadela não recebe mesada.

Óculo embaçado, bigode trêmulo, bem rouco:

– Eu quero você. Daqui não sai.

– Abra já essa porta. Se sou cadela, serei a mais escandalosa das cadelas. Abra ou se arrepende.

– Fale mais baixo.

– Se deito nesta cama você nunca mais se levanta.

– …

– Te deixo aí castrado e mortinho.

– Não grite. Por favor.

Derrotado, baixou os braços, afastou-se da porta.

Ela ajeitou a bolsa no ombro. E agarrou a sombrinha amarela. Para ver o que tinha perdido, a blusa meio aberta, sem sutiã. Ali o negro Jesus crucificado de delícias entre os dois biquinhos róseos.

– Desculpe, querida. Meu naco de pão. Fique. Meu copo de vinho. Só um pouco. Minha última ceia.

– Passe bem, doutor.

E saiu, loira de raios fúlgidos, vestido vermelho, espirrando fogo da botinha dourada.

Fim do corredor, olhou para trás: lá estava, a mão na parede, cabeça baixa. Muito longe para saber se chorava.

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