Em um universo povoado de bêbados, prostitutas e marginalizados, que o jornalista e escritor brasileiro João Antonio chama de merdunchos, Charles Bukowski (1920 – 1994) construiu a sua literatura. Bebendo do underground, não tardou para que as façanhas, em prosa e poesia, do Velho Safado fossem reconhecidas pelo seu valor, seja a estima literária, ou o resgate histórico de uma geração influenciada pelas liberdades pós-década de 1960.

E, embora o material disponível em português seja vasto, alguns poemas ainda permaneciam no limbo do ineditismo no Brasil. Tentando vencer essa barreira, o poeta e tradutor curitibano Fernando Koproski decidiu selecionar e traduzir mais de 40 poesias, que ainda não haviam recebido sua devida tradução, em uma coletânea, “Amor é tudo que dissemos que não era” (7 Letras), que acaba de chegar às livrarias.

Em tom confessional e desesperado, a obra bukowskiana emana mais que o singelo fazer literário, produzindo verdadeiros retratos do cotidiano, como em “Um poema é uma cidade”, “O homem no piano” ou “Paraíso bastardo”, que não poupam palavras para descrever a sordidez e o sentimento de inadequação ao status quo. É algo que Koproski define como “realismo desconcertante”.

Trabalhando desde 2008 no livro, o curitibano não esconde a importância da empreitada. “Houve, sobretudo, o critério de apresentar um panorama significativo dos livros inéditos de poesia do Bukowski em português, por meio de poemas representativos de seus diversos temas”, afirmou Koproski, que é também responsável por outra coletânea do Buk, “Essa loucura roubada que não desejo a ninguém a ser a mim mesmo amém” e por um retrospecto da obra poética do canadense Leonard Cohen, “Atrás das linhas inimigas de meu amor”.

 Antimanual

 Repleto de ironia e sarcasmo, “Amor é tudo o que dissemos que não era”, é na verdade, um antimanual de conduta, colocando lado a lado a realidade dos esquecidos e o falso academismo do sacrifício literário. Prova cabal disso, “Então você quer ser um escritor?” dá a deixa para iniciantes: “se você estiver fazendo isso por dinheiro ou/ fama,/não faça./se você estiver fazendo isso porque deseja/mulheres em sua cama,/não faça”.

 Dispensando as formalidades, Koproski conseguiu um resultado inigualável com a “prosa doida” do Velho, em uma simplicidade e ferocidade que a poética bukowskiana exige. “Ao contrário do que os teóricos da tradução pregam insistentemente, cada caso é um caso e deve ser estudado em separado”, disparou.

 Arrebanhando multidões, Bukowski deixou sua marca na literatura, que não raras vezes, é confundida com os beats, mas que, colocando de lado rótulos, ajudou a formar leitores e leituras em um mundo cada vez mais consumido pelo instantâneo e obsoleto.