O que antes era a menina dos olhos para a Globo está virando uma pedra no sapato. Ou melhor, um pedregulho. A Net, sistema de TV a cabo da emissora, vem amargando prejuízos nos últimos anos, o que ajudou a levar a Globopar, controladora e acionista majoritária das empresas Globo, a acumular dívidas estimadas hoje em US$ 1,5 bilhão.

Para piorar, as ações da Net, que desvalorizaram quase 95% este ano, caíram depois que a empresa anunciou que vai renegociar a dívida – o que para o mercado financeiro se traduz em moratória. “Estamos trabalhando com nossos consultores para tomar medidas para reduzir custos e aumentar o fluxo de caixa líquido”, avisa Ronnie Moreira, presidente da Globopar.

Só que essa crise está afetando principalmente os canais da Globosat. Corte nos custos, reconfiguração da programação, demissão de pessoal, cancelamento de produções e até o desmantelamento de uma emissora são dados como certos nos corredores do grupo.

O canal mais afetado será o Sportv. A expectativa é que entre 60 e 80 profissionais sejam demitidos da emissora, principalmente, no Rio e em São Paulo. Além disso, o canal de esportes, que hoje funciona no prédio da Globosat no Rio Comprido, Zona Norte carioca, deve ser transferido para um anexo ao prédio da Globo no Jardim Botânico, Zona Sul.

Isso ajudaria na estratégia da Globo de colocar o Sportv funcionando no mesmo esquema da Globo News, canal de notícias da Globosat. Ou seja: a emissora esportiva trabalharia em conjunto com o esporte da Globo, utilizando imagens e reportagens uma da outra, reduzindo deslocamentos, viagens e, conseqüentemente, custos.

A Sportv, é claro, não fala sobre o assunto. Já a Globo garante que o padrão de qualidade vai se manter não só na emissora convencional como também nos canais da Globosat. Por isso, até o diretor de Jornalismo da emissora, Carlos Schoereder, visitou redações da Globo News, Sportv, GNT e Multishow, só para acalmar os ânimos e avisar que não haverá cortes.

No Multishow, porém, é dado como certo o cancelamento do programa Os Dez Mais, além do afastamento de Simone Zucolotto do comando do Multishow em Revista, que não teria mais apresentadores. Simone, que está de férias, diz desconhecer mudanças no programa. “Sei que a situação não está fácil, mas nada disso me foi passado”, garante.

A tendência é mesmo acabar com produções nacionais. Principalmente no canal GNT. Todos os programas próprios, como Saia Justa, Superbonita e até o celebrado Manhattan Conection estariam ameaçados.

No Multishow, a ordem é evitar externas e procurar alternativas importadas para a grade, como séries, especiais e musicais. Além do mais, contratações estão suspensas, funcionários temporários não têm prazo para voltar e a contratação de prestadores de serviços só em casos extremos. Os diretores dos canais foram procurados por uma semana inteira, mas ninguém quis se pronunciar.

Mas a medida mais radical pode refletir mesmo é no Canal Brasil. Com a crise, pessoas de dentro da Globosat dão como certo o fim do canal. O diretor de programação da emissora, Wilson Cunha, foi procurado, sem sucesso. Ao mesmo tempo, a Globopar, em comunicado oficial, põe a culpa na alta do dólar para justificar a crise. A empresa alega que a maioria dos equipamentos e programas utilizados pela Net e pela Globosat são contratados em dólar, enquanto as mensalidades dos assinantes continuam em real.

A empresa avisa que já está conversando com seus credores e que houve um investimento de US$ 170 milhões de acionistas – leia-se: a família Marinho – nos últimos seis meses. “Apesar dos esforços, a deterioração do ambiente macroeconômico evidenciou a necessidade de reavaliar o cronograma de pagamento da dívida da Globopar”, explica Ronnie Moreira, da Globopar.

Mas, como desgraça pouca é bobagem, a Net registrou no terceiro trimestre do ano mais uma queda no número de assinantes. O número de clientes pagantes caiu 7,6% em relação ao mesmo período do ano passado: de 1,449 milhão para 1,338 milhão.