Entre 1945 e 1946, um grupo de japoneses residentes no Brasil recusava-se a aceitar que o Japão perdera a guerra. Acreditavam que a notícia da rendição aos Aliados era propaganda mentirosa e continuavam a sustentar que o Japão vencera, mesmo porque o imperador Hirohito era um deus e nunca na história o país havia perdido uma guerra. Com base nessa fé, hostilizam e chegam a assassinar compatriotas que aceitam a versão da derrota japonesa. O grupo radical chama-os de traidores, “corações sujos” – título do livro-reportagem de Fernando Morais, levado para a tela por Vicente Amorim. É esse o filme que abre hoje à noite, para convidados, o 4.º Festival de Cinema de Paulínia.
Em conversa com a reportagem, Amorim disse que encontrou no livro de Fernando Morais (Companhia das Letras, 2000) excelente ponto de partida para reflexão sobre a adequação e identidade, “temas que me são muito próximos”, diz. O livro era uma base de roteiro, porque se trata, no fundo, de uma grande reportagem. Era preciso, para transformá-lo em obra de ficção e não em documentário, criar personagens e enredos.
A situação histórica real, descrita por Morais, torna-se assim um extraordinário pano de fundo, sobre o qual se desenha o destino desses personagens. A tragédia dos corações sujos tinha ainda outro atrativo aos olhos de Vicente Amorim. “Queria dialogar com o presente”, diz. “Detesto filme histórico com ar de museu; o passado tem de ser vivo, servir de reflexão para o presente”.
No caso, sintomaticamente, trata-se de uma história de intolerâncias cruzadas. Ao lado do fanatismo patriótico de parte da comunidade, havia a contrapartida da repressão sobre os imigrantes durante o Estado Novo e no imediato pós-guerra. Os japoneses não podiam ensinar seu idioma, cultuar a bandeira nacional e nem mesmo falar a língua em público. Tudo isso contribuiu para o isolamento da comunidade.
E, por ser exemplar, Amorim percebeu que teria de trabalhar com elenco japonês e fazê-los falar em seu idioma. “O isolamento era, na base, uma questão de idioma, por isso o filme não teria sentido se os personagens falassem em outra língua que não o japonês”. Por isso, Amorim escalou elenco japonês, com atores conhecidos em seu país. Tsuyoshi Ihara é Takahashi, o fotógrafo envolvido na guerra aos corações sujos. Ele é protagonista de “Cartas de Iwo Jima”, de Clint Eastwood. Eiji Okuda é o rígido coronel Watanabe, que comanda a vingança aos “traidores”. É um dos atores de teatro e TV mais famosos do Japão, assim como Takako Tokiwa, no papel de Miyuki, a esposa de Takahashi. Na escolha do elenco nipônico pesou a questão da autenticidade da trama, mas também o aspecto comercial, já que o filme deverá ser lançado no Japão. No Brasil, a estreia é prevista para o mês de novembro. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.
Concorrentes
Ficção
“A Febre do Rato”, de Cláudio Assis;
“Meu País”, de André Ristum;
“O Palhaço”, de Selton Mello;
“Onde Está a Felicidade?”, de Carlos Alberto Riccelli;
“Os 3”, de Nando Olival;
“Trabalhar Cansa”, de Juliana Rojas e Marco Dutra.
Documentário
“A Cidade de Imã”, de R. German;
“A Margem do Xingu”, de Damià Puig Auge;
“Ela Sonhou Que Eu Morri”, de Matias Bracher Mariani;
“Ibitipoca – Droba pra lá”, de Felipe de Barros Scaldini;
“Rock de Brasília – Era de Ouro”, de Vladimir Carvalho;
“Uma Longa Viagem”, de L. Murat.