O consagrado poeta e escritor Carlos Nejar, membro da Academia Brasileira de Letras, está lançando seu primeiro livro de contos pela editora Nova Alexandria. A obra, denominada Contos Inefáveis, traz uma profunda reflexão sobre a condição humana, seus limites, perplexidades, penúria e grandeza. Os 97 contos reunidos percorrem vários estilos, do realismo ao surrealismo, da sátira ao drama. O conteúdo relata a batalha cotidiana enfrentada pelo homem e sonda os mistérios de Deus, da vida e da morte. Para Nejar, o livro é irônico, poético, dramático, mágico, fabulista, real, mas sempre marcado pelo sonho. “Somos os nossos mais altos sonhos”, considera.

Da poesia ao conto

“Ninguém sabe por que passou a escrever – ainda mais contos, sendo poeta”, diz Nejar. “O fato é que os contos começam a pedir passagem na imaginação e não me preocupo com os gêneros, que sofreram ruptura na contemporaneidade. Preocupo-me apenas com a linguagem. E foi ela que se impôs, com visão pessoalíssima e os leitores poderão descobri-la, o que também me descobriu”, explica. O autor começou a escrever os contos quando estava morando no “Paiol da Aurora”, em Guarapari, no Espírito Santo, há sete anos. Após uma pausa, eles continuaram sendo redigidos no Rio, no bairro da Urca, a partir de 2010.

Obra de estrutura livre

O formato de Contos Inefáveis mostra quão livremente as estórias “pediram passagem na imaginação” do escritor. Regras Ancestrais, por exemplo, tem apenas três linhas. Já O Aventuroso Cavalo Olivério tem cinco páginas. “Esta estrutura não foi postulada por mim. Foi-se tecendo. Só no final tive ideia do que formou. O conto tem o tamanho de sua respiração. A vida na ficção só se esgota, ao se esgotarem suas palavras”, acrescenta Nejar.

Ao longo da obra, vão se descortinando diversos temas como eternidade, morte, imortalidade, normalidade, diferenças, linguagem e mistérios da vida. Alguns contos apresentam traços autobiográficos, como aqueles que acontecem no cenário dos pampas gaúchos e que destacam os cavalos na vida dos meninos e dos homens. “Em toda a criação não se foge do autobiográfico. A lei de Lavoisier também se aplica à arte: ‘Nada se perde, tudo se transforma’. Ou se encanta, na medida em que alcança ser mágico. O cavalo é um laço de infância, desde o pampa, onde o homem e o corcel são corpo e alma”, explica Nejar.

Algumas das estórias de Contos Inefáveis são ambientadas na cidade de Assombro, a mesma que aparece em vários romances de Nejar, como Carta aos loucos e Jonas Assombro. “É uma cidade que inventei. Com seres que me foram inventando”, revela. Uma delas é a estória de um juiz de direito, que não gostava nem de processo e nem de audiência e, assim, passou a defender a lei do menor esforço. Outro caso que se passa também em Assombro é o do bibliófilo Jeronimus Linch, no conto Vasos Comunicantes, em que misteriosamente o acervo da cidade começa a desaparecer.

A edição de Contos Inefáveis da Nova Alexandria traz ainda um texto de orelhas escrito por Nelly Novaes Coelho, que é pesquisadora, ensaísta, crítica literária e professora titular da Universidade de São Paulo.