São Paulo – Personagens adolescentes, sexo real e não as tradicionais fantasias da primeira noite celebradas pelo cinemão, drogas – a tentação mais fácil é comparar Aos Treze, que estréia hoje em Curitiba, com Kids. Seria a versão feminina da saga dos garotos de Larry Clark e Catherine Hardwicke, a versão masculina do diretor que começou transgressor e terminou perdendo o ímpeto, à força de tanto querer escandalizar. Catherine é muito segura quando diz que seu cinema não tem nada a ver com o de Clark. Suas personagens, ela destacou, possuem, bem ou mal, uma vida familiar. Pais e mães participam das tramas. É muito mais do que se pode dizer dos kids.

Catherine baseou-se numa história real – a de sua enteada Nikki Reed, que co-assina o roteiro e interpreta o segundo papel feminino. Na verdade, Tracy (Evan Rachel Wood), a protagonista de Aos Treze, é inspirada nas experiências de Nikki, que faz a personagem Evie Zamora. Enquanto Tracy é uma garota careta, nos limites do insosso, Evie faz o tipo descolado. Usa piercing, roupas multicoloridas e faz sexo, o que a torna uma das figuras mais populares da escola. Influenciada por Evie, Tracy inicia uma viagem que termina por transformá-la numa estranha para sua mãe. Essa viagem iniciática é também uma história (clássica) de busca de identidade, mesmo que os elementos sejam moderninhos. A situação chega a um ponto em que as mães – Holly Hunter faz a de Tracy, Deborah Unger, a de Evie – têm de interferir no processo autodestrutivo das filhas, o que ocorre quando a boazinha é acusada de haver pervertido a bad girl.

Honestidade

Aos Treze não é um grande filme, mas a honestidade intelectual de Catherine Hardwicke tem lhe valido elogios em vários foros. Além do prêmio de direção no Festival de Sundance, o filme também deu a Holly Hunter o prêmio de melhor atriz em Locarno. No Festival do Rio 2003, foi um dos mais vistos pelo público, com Elefante, de Gus Van Sant, e Encontros e Desencontros, de Sofia Coppola. Talvez o mais curioso sobre Aos Treze é que o filme resulta da soma de vários olhares femininos e, neste sentido, talvez seja o anti-Kids, com seu enfoque decididamente masculino.