Presidentes (no plural) do júri do Festival de Cannes que outorgou a Palma de Ouro para Dheepan, do francês Jacques Audiard, os irmãos Ethan e Joel Coen recebem nova homenagem de outro grande evento de cinema europeu. Desta vez, Ethan e Joel inauguram oficialmente o Festival de Berlim, que começa na quinta-feira, 11, e se estende até domingo, 21 – mas com uma particularidade. O anúncio dos prêmios da Berlinale, incluindo o cobiçado Urso de Ouro, é feito no sábado, este ano, 20.

Ave, irmãos Coen. Ave, César!/Hail, Caesar! é o título do novo filme deles, que retoma os bastidores de Hollywood – como Barton Fink, Delírios de Hollywood, com o qual ganharam a Palma de Ouro de 1991 -, acrescentando não uma pitada, mas boa dose do clima de paranoia de Guerra Fria, como o roteiro que escreveram para Steven Spielberg, Ponte dos Espiões (e o background de Trumbo – Lista Negra, de Jay Roach, atualmente em cartaz nos cinemas). O Brasil não participa da competição, mas nem por isso estará ausente da Berlinale de 2016. Anna Muylaert volta à seção Panorama de Berlim para mostrar seu novo longa, Mãe Só Há Uma. No ano passado, ela mostrou, justamente no Panorama, seu longa Que Horas Ela Volta?, que já havia sido premiado em Sundance, dias antes. Que Horas…? venceu o prêmio do público em Berlim, cumpriu uma bela carreira internacional e, até no País, teve um upgrade de bilheteria depois de ser indicado pelo Brasil para concorrer a uma indicação para o Oscar.

Que Horas…? não ficou na shortlist de nove, e portanto já estava desclassificado como concorrente para o Oscar de filme em língua estrangeira. Mas repercutiu, produziu acalorados debates, e isso é que importa. Sara Silveira, através da Dezenove Filmes, é quem produz Mãe Só Há Uma. Anna e ela já estiveram juntas em dois longas da diretora – Durval Discos e É Proibido Fumar. Sara participou, via Skype – estava em São Paulo, empenhada na finalização do filme de Anna – de um importante seminário na Mostra de Tiradentes, em janeiro.

O tema era ‘parcerias internacionais’, um fórum (mercado?) decisivo para obras de um perfil mais autoral, com dificuldades de afirmação nas salas brasileiras, em que o público prefere rir com os blockbusters de comédia, relegando a circuitos mínimos, quando não alternativos, os filmes de proposta mais ‘artística’.

Em entrevista, Anna diz que está muito feliz de regressar a Berlim, que define como seu festival ‘favorito’ – não tão grande quanto Cannes e de forte conteúdo político, em todas as suas seções. Ela filmou no fim de 2014 e terminou montando Mãe Só Há Uma durante o processo de exibição do Que Horas…? no estrangeiro e, depois, no próprio Brasil. As últimas semanas foram intensas. “A versão final (em digital) foi finalizada na semana passada”, disse – e a entrevista foi feita na sexta-feira, 5. Estar dois anos seguidos num grande festival como Berlim não representa pouca coisa. “O normal seria achar que não teríamos chance, porque já havíamos sido selecionadas no ano passado”, reflete a produtora. “Mas o que eu senti é que eles queriam a Anna justamente por causa do Que Horas Ela Volta? no ano passado”, diz Sara. Embora os filmes da seção Panorama não concorram aos Ursos, podem ganhar prêmios da crítica e do público, como o Que Horas..? Recebeu.

Todo filme de Anna Muylaert fala de família. Mãe Só Há Uma não foge à regra. Inspira-se num episódio que ficou célebre na crônica policial de Brasília, o do garoto Pedrinho, que foi sequestrado quando bebê na maternidade. Ele foi devolvido à família biológica, a sequestradora, chamada Wilma, foi presa, mas Pedrinho não rompeu seus laços com ela e nunca deixou de visitá-la, depois que foi solta. A versão ficcionalizada de Anna incrementa ainda mais a história.

O garoto apresenta um comportamento trans. A diretora, também roteirista, explica-se. “Durante muito tempo, por motivos familiares, vivi de forma muito doméstica. Nos últimos anos, voltei à noite e me deparei com uma nova juventude.

A questão de gênero deixou de ser tabu. Garotos com garotos, garotas com garotas, garotos que se vestem como mulheres sem afetação, garotas que se vestem como homens. Os carinhas estão usando saia e bigode sem constrangimento. É uma mudança de comportamento muito interessante que resolvi incorporar. Tive a ajuda de um pesquisador que foi muito valioso, o também diretor Marcelo Caetano, do curta ABC Bailão.”

Mesmo sendo, pela própria personalidade da diretora, o longa brasileiro mais vistoso em Berlim, Mãe Só Há Uma não será o único representante do Brasil no festival alemão. Também foram selecionados no Panorama Antes o Tempo Não Acabava, de Fábio Baldo e Sérgio Andrade, e Curumim, de Marcos Prado. A Berlinale vai exibir, em suas diversas seções (competição, Panorama, Forum, Generation etc) 51 produções de 33 países. Talvez atendendo a uma solicitação da Ministra da Cultura da Alemanha, que, no festival passado, cobrou do diretor artístico – e presidente da Berlinale -, Dieter Kosslick, uma maior presença feminina, o festival deste ano terá o comando de uma mulher, Meryl Streep, que vai presidir o júri. Não é a primeira vez que isso ocorre – em anos recentes, outra atriz, Tilda Swinton, já presidiu o júri. Mas os números permanecem modestos – dos 18 filmes em concurso (veja a lista abaixo), somente dois são assinados por mulheres, a alemã Anne Zohra Berrached e a francesa Mia Hansen-Love.

E, claro, temos Anna. Essa questão do feminismo – o espaço da mulher no mundo, e no cinema – envolveu a diretora no ano passado. Anna participou de um debate com colegas diretores – Cláudio Assis e Lírio Ferreira – no Recife e choveram acusações, nas redes sociais, de que foram machistas e ofensivos em relação a ela.

Em outro momento, sua relação ficou tensa com os produtores da Gullane Filmes, que produziu Que Horas Ela Volta? Anna pede tempo. Não quer mais falar do assunto. “Foi uma coisa que me machucou muito”, diz. Talvez um dia ela volte a esse debate que interessa tanto às mulheres. Enquanto isso, comemora o retorno à parceria com Sara Silveira. “Nenhuma de nós tem um temperamento fácil, mas, do set à pós-produção, o processo do Mãe foi colaborativo e prazeroso, como deve ser.” No elenco do filme, estão Matheus Nachtergaele e Dani Nefussi, premiada em Brasília por outro filme de Anna, É Proibido Fumar. “Há muito, Matheus e eu queríamos trabalhar juntos. Dessa vez deu, e foi ótimo.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.