d43ok.jpgNa publicação anterior, o antropólogo João Dal Poz falou de sua convivência de mais de 20 anos com os índios cintas-largas, do trabalho indigenista e dos estudos antropológicos que realizou. Damos continuidade ao tema anterior com o objetivo de proporcionar ao leitor melhor compreensão, do modo de vida do povo cinta-larga.

Z – Os cintas-largas realmente comiam gente?

J.D.P. Primeiro é preciso entender que, ao contrário do senso comum ocidental, a dádiva é, ali e em todo lugar, o fundamento da vida social. Não é uma escolha arbitrária dos sujeitos que interagem na relação, é a sua condição necessária. De modo que, para o sistema canibal que regula as relações na sociedade cinta-larga, a questão haveria de ser colocada nos seguintes termos: alimenta-me ou devoro-te!, parafraseando aqui o desafio que a Esfinge lançava aos viajantes, no mito de Édipo. Ou seja, se você não é um doador de alimentos, então o outro representa a ameaça canibal e você, o próprio alimento. Afinal, não há outra maneira de ser sujeito numa relação como essa: se não doador, então a posição de alimento.

Z – E quem não for doador?

J.D.P. Ora, a condição de sujeito é que, para todos, alguém esteja como doador em relação ao outro. Justamente porque esta é uma relação presidida pela ameaça canibal. A dissolução da ameaça canibal processa-se por meio de dádivas incessantes e recíprocas. E, ainda, a posição de canibal nunca está determinada a priori, pois quem agora deu coloca-se imediatamente numa posição de credor com relação ao outro. A dinâmica sociológica que ali vigora não tem, por isto, nem ponto de partida ou de final.

Z – Essa é a razão canibal dos cintas-largas?

J.D.P. – Na tese de doutorado procurei mostrar que tal dinâmica é a única que explica, por dentro, o exercício da chefia política. Ser chefe requer a capacidade de angariar e de dispor de bens e serviços para os seus comandados, os seus corresidentes. Quem não é capaz de proporcionar para sua aldeia bens e serviços considerados essenciais, obtidos mediante a venda de madeira ou no garimpo, corre o risco de ser abandonado pelo grupo aldeão.

Z – Então os chefes são muito assediados?

J.D.P. Um bom chefe, hoje, é aquele que se projetou no cenário político, vamos dizer assim, ao encontrar novas oportunidades ou nichos de mercado, conquistando assim recursos monetários e mais bens e serviços – um novo garimpo, uma nova frente de trabalho para extração de madeira etc. Depois do aparecimento do garimpo de diamantes no Roosevelt, a maioria das aldeias tornou-se satélite desse empreendimento, de modo que os que conseguem canalizar tais recursos para si e sua aldeia passam a desempenhar um papel político relevante. A riqueza monetária é, portanto, uma condição necessária para o exercício político, como era antigamente construir uma casa, fazer uma roça, etc.

Z – É por isso que você fala em uma lógica canibal dos cintas-largas?

J.D.P. A lógica canibal funciona como um operador cultural capaz de apreender situações que envolvem grupos distintos e opostos, e assim confere aos eventos um sentido e um valor no curso da ação social. Os eventos históricos do contato mostram, por sua vez, que os ?civilizados? eram inimigos, e se tornaram hoje parceiros comerciais… Este é um modelo sociológico marcado pela predação alimentar, e não apenas de maneira metafórica!

Z – Por que eles deixaram de comer os outros?

J.D.P. – O canibalismo real postula, de certa maneira, uma fronteira entre quem troca o quê com quem. Quem troca escaparia, por assim dizer, do círculo da ameaça canibal. O mesmo não acontece com quem não troca bens, serviços, mulheres. Este esquema funda uma fronteira política que, entretanto, não é determinada de uma vez por todas, mas instável e precária. Os cintas-largas dizem que, no passado, não se comiam entre si, pois eram parentes, pois o canibalismo está voltado aos outros, os estrangeiros, os inimigos. A idéia é que, após os primeiros contatos amistosos, os civilizados tornaram-se parceiros da troca, e daí já não são bons para comer… O canibalismo, enfim, reordena as posições de comensais e de vítimas; no caso, aproximando-as sob a condição de parceiros comerciais.

Z  – Como a morte dos garimpeiros se encaixa nesse esquema?

J.D.P. – A própria mídia já noticiou que, na ocasião, os índios incumbiam-se da expulsão de uma turma de 20 a 30 garimpeiros, amarrados com cipós, para conduzi-los aos policiais que tomavam conta de uma barreira nos limites da área indígena. Os xingamentos e as ameaças aos índios exaltaram os ânimos, e deu-se o conflito que resultou na morte trágica desses garimpeiros. Há aqui um padrão típico dos povos tupis, do mesmo tronco lingüístico dos cintas-largas, que não deixa margem para manobras conciliatórias: diante de um conflito aberto, não há meio-termo, ou um dos contendores afasta-se por um longo tempo ou a tensão resulta na sua eliminação. O que aconteceu, ao que parece, foi algo parecido. Um dos garimpeiros teria ofendido os índios, ameaçando voltar para matar a todos. Nessa sociedade a agressão verbal é uma atitude muito grave: o tom de voz elevado ou os gritos, segundo o ethos nativo, são uma forma de agressão, uma violência desmesurada contra a honra pessoal. De acordo com o que disseram índios e policiais aos jornais, isto teria ensejado o desenlace fatal. A antropologia, afinal, já nos ensinou que os atos e as palavras, em diferentes sociedades e culturas, veiculam significados muito particulares. E estes têm o poder de expressar a diferença entre a vida e a morte, para os nativos entre si ou na sua relação com os estranhos!

Zélia Maria Bonamigo é jornalista, mestranda no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social pela UFPR, membro do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná. zeliabonamigo@uol.com.br