Cada geração tenta mudar o cânone do cinema brasileiro e, de teimoso, o Cinema Novo sempre volta ao seu posto de mais importante movimento da cinematografia nacional. A retrospectiva da Cinemateca Brasileira, em parceira com a Unifesp, procura reviver essa fase crucial do cinema brasileiro com a exibição de 53 filmes – 35 longas e 18 curtas, muitos deles em cópias 35 mm, e outros raramente lembrados e menos ainda mostrados recentemente.

A maior parte dos clássicos do Cinema Novo foi lançada em DVD. Alguns deles, pelo impacto da imagem, merecem ser revistos em cópias 35 mm. São os casos de, por exemplo, O Padre e a Moça, de Joaquim Pedro de Andrade, e São Bernardo, de Leon Hirszman. A fotografia do primeiro é de Mario Carneiro e a do segundo, de Lauro Escorel. Dois trabalhos referenciais do cinema brasileiro.

Alguns dos títulos são de fato pouco exibidos e podem ser tidos na conta de raridades. É o caso, por exemplo, de O Desafio, de Paulo César Saraceni, com Vianinha (Oduvaldo Vianna Filho) no papel de um jornalista angustiado com a falta de saída política do País. De 1965, O Desafio é o primeiro longa-metragem a “responder” ao golpe de 1964 (Terra em Transe, de Glauber, viria em 1967). Contém uma sequência antológica de Maria Bethânia cantando Carcará no show Opinião. Uma espécie de cerimonial da resistência a uma ditadura então recém-instalada no poder.

Outros títulos da retrospectiva também podem entrar na cota das raridades, como Garota de Ipanema (1968), de Leon Hirszman, ou A Vida Provisória (1968), de Maurício Gomes Leite. Gimba (1963), única direção de cinema de Flávio Rangel, baseado em peça de Gianfrancesco Guarnieri, traz o grande crítico Paulo Emilio Salles Gomes no papel de um delegado de polícia, mas esta curiosidade não é seu único interesse.

A Grande Feira (1961), de Roberto Pires, Bahia de Todos os Santos (1960), de Trigueirinho Neto, e O Grito da Terra (1964), de Olney São Paulo, são raramente exibidos. Ainda mais em cópias 35 mm. Também agregam valor à retrospectiva.

Da mesma forma que Câncer, um dos poucos filmes de Glauber Rocha ainda não lançados em DVD. Este é um caso à parte na filmografia do diretor baiano. Feito em 16 mm, é tido como precursor do Cinema Marginal e baseia-se no improviso de atores como Antonio Pitanga, Odete Lara e Hugo Carvana. Glauber filmava até que se acabasse o chassi de 16 mm e então passava à nova sequência.

A retrospectiva de filmes é complementada por uma exposição com materiais relacionados às produção das obras, como roteiros e storyboards. Documentos relembram a enorme repercussão do movimento no Brasil e no exterior (até hoje, nos meios cultos de outros países, Cinema Novo é sinônimo de cinema brasileiro). Material gráfico como cartazes, assinados por nomes como Ziraldo e Rogério Duarte, também estão presentes na exposição.

Enfim, todos esses elementos contribuem para a experiência do que foi e significou o Cinema Novo para a cultura do País. Dos curtas precursores, Arraial do Cabo, de Paulo Cesar Saraceni e Mário Carneiro, e Aruanda, de Linduarte Noronha, até as obras-primas centrais do cânone, Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, e Os Fuzis, de Ruy Guerra – está tudo lá. Ou quase. A ausência mais notada é de Nelson Pereira dos Santos. Maior precursor do movimento com seus dois filmes de aclimatação do neorrealismo italiano no Brasil, Rio 40 Graus (1955) e Rio Zona Norte (1957), Nelson também é autor de Vidas Secas (1963) que, ao lado de Deus e o Diabo e Os Fuzis, compõe a “santíssima trindade” do Cinema Novo. Não se escreve essa história sem ele. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.