Há rappers e rappers. Alguns são bons de rimas, outros são fábricas de hits. Mas só um tem a capacidade de transformar uma apresentação de 90 minutos em um alucinante teatro de caos, ganas e catarse. Foi o que fez Eminem, na sexta-feira, em show histórico que marcou sua primeira vinda ao País e mostrou que, embora seu rap apele ao sentimentalismo fácil, ao vivo, suas apresentações estão num patamar muito além do de outras estrelas atuais.

Eminem subiu ao palco do Jockey Club por volta das 22h30 e foi logo cumprimentado por uma chuva que deixou partes da cidade em estado de alerta. A tempestade alcançava o fundo do palco, molhava os bateristas e a cantora de backing vocals. Causava pipocos no sistema de iluminação. Ao fim da terceira música, tudo parecia fadado à catástrofe. Mas Eminem foi enfático: “Fod…, vamos até o fim”, disse sob o capuz de um moletom preto encharcado. Em hits como “The Way I Am”, “Sing for the Moment” e “Till I Collapse”, atirava certeiro com sua prolífica metralhadora silábica. A dramaticidade contundente das canções, cujas batidas parecem sempre estar a caminho de algum estorvo, davam o tom apocalíptico da apresentação. O público foi ao delírio. Muitos abandonaram as capinhas de chuva para se entregarem ao transe.

O clímax veio com “I’m Not Afraid”. A canção emociona com sua narrativa de superação e o rapper, que recentemente largou seu vício em medicamentos, parou o show e agradeceu: “Obrigado por nunca terem parado de acreditar em mim”. Foi sincero e tocante. Um momento de pura catarse que, em seguida, com a melodia emocionante, confirmou o retorno de Eminem ao topo e mostrou que, por baixo do capuz preto, há muita substância (impossível pensar em outro pop star dessa magnitude que arriscaria ser eletrocutado no meio de uma pista de cavalos num país da América Latina para não decepcionar o seu público).

Os shows de abertura, de Marcelo D2 e o grupo N.E.R.D atrasaram mais de duas horas e foram encurtados. N.E.R.D estava esquentando com suas faixas sutis e hiper-dançantes quando teve de parar. É pena. O líder do grupo, Pharell Williams é um dos mais criativos da cena de hip hop atual. As informações são do Jornal da Tarde.