O Cultural Office está lançando hoje o livro Solda, do artista e cartunista Luiz Antonio Solda. O projeto foi viabilizado através da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, com o patrocínio do HSBC. Solda, paulista de Itararé, veio para Curitiba aos 13 anos de idade e se tornou autor, ator, sonoplasta, músico, cenógrafo, faxineiro, bilheteiro e cartazista, tendo inventado o teatro do eu sozinho, como disse o Jaguar.

Solda possui um traço refinado, puro talento, que agrada à primeira vista, desde os tempos da ditadura militar. Atualmente, Solda contribui na coluna Carta de Vinhos, de seu amigo Luiz Carlos Zanoni, no caderno Almanaque (cujo projeto gráfico é dele) dominical de O Estado do Paraná.

As histórias sobre o artista são muitas, mas a definição mais precisa vem de seu amigo Jaguar, que o apresenta com seu humor empáfio. Leia-a.

Serviço

Beto Batata. Rua Professor Brandão, 678, Alto da XV, hoje às 19 horas.

O humorista por Jaguar

Quem tem currículo tem medo; Solda não, é uma das poucas exceções. Nasceu em 52, em Itararé, interior de São Paulo, onde, segundo o Barão do mesmo nome, travou-se a maior batalha que não houve da História.

Por razões ainda obscuras mudou-se com mala e cuia de chimarrão para a capital do Paraná quando tinha 13 anos. Não esperou a maioridade para entrar em cena no primeiro teatro que lhe apareceu pela frente, onde fez de tudo; foi autor, ator, sonoplasta, músico, cenógrafo, faxineiro, bilheteiro e cartazista, tendo inventado o teatro do eu sozinho.

Mas como esqueceu de ser também espectador, foi à falência por falta de público.

A gente se conheceu em 74, no Primeiro Salão de Humor de Piracicaba, eu como jurado, ele como um dos concorrentes premiados.

Daí pra frente dedicou-se a atividades subversivas e anti-sociais, cartum, literatura e propaganda, não necessariamente nesta ordem. Voltou em 92 ao seu torrão natal, para a mostra “100 anos de Itararé” e constatou que Aparício Torelly, o Barão de Itararé, estava certo: a tal famosa batalha não houve mesmo.

Na verdade o fato mais importante que aconteceu na cidade foi ele, Solda, ter nascido lá. Voltou à base e só não se naturalizou curitibano para não magoar sua avó.

Sempre pensei que Solda era codinome e não sobrenome. Só agora fiquei sabendo que se chama, na carteira de identidade, Luiz Antonio Solda. “Solda”, ensina o dicionário, “ligar, unir com solda, por fusão parcial obtida por maçarico.”

Pois é, pensei que era a solda das múltiplas coisas que ele faz.

Seu cartum fatalmente teria que desaguar nas letras. Ele é um cartunista de letras. Nuvens de letras pairam sobre os calungas que desenha, jorram da telinha da tevê, se derramam dos chapéus, das gavetas, dos livros entreabertos, de todos as fendas, buracos e orifícios.

Seus textos são cáusticos e certeiros como o de outro grande cartunista que também escrevia primorosamente, o Fortuna. São ao mesmo tempo absurdos e lógicos. E vice-versa. E não me pergunte por quê, leia o Solda que você vai saber do que estou falando. Quer que eu mostre o pau depois de matar a cobra? Segure este hai kai : “é só entrar no banheiro / levar um choque no chuveiro / e sair limpo / pra se sujar o dia inteiro.”

Foi amigo e parceiro – de trabalho e mesa de bar – do maior poeta do Paraná, quiçá do Brasil, Paulo Leminski, invejado por todos os alcoólicos anônimos por ser notório. Quando Leminski morreu de cirrose Solda parou de beber quando, muito pelo contrário, deveria estar bebendo em dobro, por ele e pelo Leminski. Mas ainda pode se redimir.

Estou guardando o seu lugar na turma do funil. (Jaguar)