Blindagem: Vou pra Porto Alegre,
tchau, tchau.

O Paraná é homenageado pela Câmara Rio-grandense do Livro, de hoje ao dia 17, quando acontece em Porto Alegre a 48.ª Feira do Livro. O Estado, eleito o tema de 2002, será representado pela vice-governadora Emília Belinati, por Aldo Almeida, presidente do BRDE, e pelo escritor Miguel Sanches Neto, diretor da operosa Imprensa Oficial, na abertura, quando o estante paranaense – o maior entre os 200 expositores – abre com a exposição Ex-Libris, reunindo acervo da Biblioteca Pública do Paraná.

A Feira do Livro, sediada na Praça da Alfândega, é a maior da América do Sul, em espaço aberto. Além do Paraná, ela homenageará a memória do ambientalista gaúcho José Lutzemberger. E contará com autores populares, como Nelson Motta, Ziraldo, Ana Maria Machado e Nuno Cobra.

Além da literatura, outras áreas culturais do Paraná estarão presentes, como o cinema – serão exibidos filmes de Sylvio Back sobre os poetas Cruz e Sousa e Helena Kolody, de 90 anos – e a música, representada pela voz de Neusa Pinheiro, banda Blindagem, com repertório do parceiro Paulo Leminski, e pelos fandangueiros de Mestre Romão. O teatro será representado por um espetáculo de Walmor Marcelino, ensaísta, editor e dramaturgo.

Além de alimentos da alma, a representação do Estado, laboriosamente organizada pela Secretaria da Cultura e Imprensa Oficial, não descuidou de outro prazer, providenciando um barreado. O prato típico paranaense será oferecido em jantar hoje, tendo entre os convidados o governador Olívio Dutra.

Para o escritor Cristóvão Tezza, que amanhã participa de mesa-redonda com os colegas Domingos Pellegrini, Roberto Gomes e Manoel Carlos Karam, “a homenagem ao Paraná é muito justa, pois há muito tempo conquistamos uma presença de qualidade no cenário literário brasileiro”. Mas repara: “Sempre tivemos bons autores. O que falta para a literatura paranaense aumentar sua participação no mercado é uma estrutura editorial mais atuante.”

“Temos boas coisas acontecendo no Estado, com escritores locais recebendo premiações importantes. A participação na feira é um somatório para fortalecer este setor da cultura do Paraná”, diz Karam, que por sinal é detentor do Prêmio Cruz e Sousa, que este ano Santa Catarina concedeu a Miguel Sanches Neto. “A Imprensa Oficial – destaca – atuou nos últimos anos como uma grande editora, resgatando obras que fazem parte de nossa história e valorizando os autores locais”.

Assim, toda a coleção Brasil Diferente (42 títulos e 83.500 exemplares), editada pela Imprensa Oficial, estará no Espaço Santander. Bem como obras recentes, de editoras nacionais, mas que vêm sendo distribuídas para escolas do Paraná. Livros do projeto Livraria do Paraná, realizado pela Secretaria da Cultura para novos autores do Estado, serão distribuídos.

Debates e tertúlias

Amanhã, às 18h, no Clube do Comércio: O Paraná como Paisagem na Ficção, mesa-redonda e sessões de autógrafos com Pellegrini: Notícias da Chácara Chão (Imprensa Oficial do Paraná), Roberto Gomes: Os dias do demônio (Criar), Karam: Pescoço ladeado por parafusos (Ciência do Acidente) e Luís Bueno: Remorso (Imprensa Oficial)

Domingo, às 17h30, no Espaço Santander: Painel dos Contistas do Sul. Luís Bueno sobre Newton Sampaio, Ana Maria Filizola sobre Dalton Trevisan, mais os gaúchos Amílcar Bettega e Charles Kiefer. Ainda: lançamento de Seis romances e uma pintura, de Otávio Duarte.

Dia 8, às 17h30: os Cronistas de Londrina: Nilson Monteiro (mediador), Nelson Capucho e Paulo Briguet. Dia 9, 19h: Jornalismo cultural no Paraná. Exibição de filmes de Sylvio Back. Dia 10, 19h30: Um Pouco Além da Literatura, com Alice Ruiz (letra e poesia), Ricardo Corona (letra e poesia), Sylvio Back (cinema e literatura), Carlos Dala Stella (literatura e artes plásticas), Ernani Buchmann (literatura e esporte), mediação de Ivete Brandalise.

Painel sobre Paulo Leminski, dia 11, às 19h30, na praça da Feira do Livro: Cassiana Lacerda sobre as conexões com o simbolismo e Toninho Vaz (O Bandido Que Sabia Latim, Editora Record) sobre a trajetória do poeta; Léa Masina na mediação. Show acústico da Blindagem.

Dia 15, às 19h30: Poesia em revista, com Paulo Venturelli, Walmor Marcelino, Foed Castro Chama, Jair Ferreira dos Santos, Armindo Trevisan e José Eduardo Degrazia. Exibição do filme Babel de Luz, de Back.

Sarau Literário, dia 15, às 18h30, com Rodrigo Garcia Lopes e Neuza Pinheiro. E no dia 16, às 19h30, Poesia em revista, com Ademir Demarchi, Marcelo Sandmann, Maurício Arruda Mendonça, Rodrigo Garcia Lopes, Márcia Helena Sut e Fabrício Carpinejar. Lançamentos das revista Babel e Coyote e apresentação da peça Uma Poética no Espaço.

Biografia reeditada

Os mais recentes trabalhos da Imprensa Oficial são a reedição da Biografia ou breve notícia sobre a vida do muito humanitário médico dr. José Cândido da Silva Murici, de Cândido Lopes, e a edição da revista Radar. As duas obras também estarão no estande do Paraná na Feira do Livro.

Integrante da coleção Brasil Diferente, com trabalho de garimpagem de pesquisa e legenda das ilustrações dos médicos Carlos Ravazzani e Iseu Affonso da Costa, a reedição da Biografia… comemora – com ortografia atualizada – os 150 anos da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Curitiba, cujas festividades científicas e culturais irão se estender até 25 de março de 2003, data do centenário do Hospital Nossa Senhora da Luz.

Dr. Murici (1827-1879) foi provedor da Santa Casa por 13 anos, até sua morte. A Biografia… foi publicada, logo após sua morte, pela Typographia Escola de Serafim José Alves, no Rio de Janeiro.

“A coleção Brasil Diferente foi e continua sendo saudada pela crítica especializada como o mais importante projeto literário que aconteceu no Brasil nos últimos 20 anos”, diz Miguel Sanches Neto, que agora espera outro sucesso: a revista Radar, de caráter cultural. Desde a morte de Nicolau, o Estado devia um sucessor. A primeira edição trouxe algumas raridades. O contista mineiro Luiz Vilela relata o encontro que teve com Dalton Trevisan, no ano de 1968 em Curitiba – material documentado por fotos, algumas inéditas. Radar também traz as impressões que o escritor norte-americano John dos Passos teve do Paraná, durante uma longa visita há meio século.

Na praça há 47 anos

A Feira do Livro de Porto Alegre teve sua primeira edição em 1955, por iniciativa do jornalista Say Marques. Ele acabava de voltar do Rio de Janeiro, onde havia visitado uma feira realizada na Cinelândia, com a firme decisão de convencer os livreiros e editores da cidade a realizarem um evento similar, oferecendo-lhes o apoio incondicional do Diário de Notícias, do qual era diretor-secretário.

A intenção era popularizar o livro, dinamizando o mercado livreiro da cidade e do Estado, ao disponibilizar uma ampla oferta de livros com descontos significativos sobre os preços normalmente praticados.

Até então, as livrarias gaúchas eram consideradas elitistas. Poucos as freqüentavam, com exceção da época de compra de material didático, no início do ano escolar. Assim sendo, o lema dos fundadores era: “Se o povo não vem à livraria, vamos levar a livraria ao povo”.

Na época, a área mais movimentada do centro era a Rua da Praia, no trecho entre a Caldas Júnior e a General Câmara, onde concentravam-se os principais cinemas da cidade, que contava com 400 mil habitantes.

Nada mais natural, então, que o lugar escolhido para realizar a feira fosse a Praça da Alfândega, situada nessa área, onde foram instaladas, em plena primavera, 14 barracas de madeira em torno do monumento ao General Osório, sob os jacarandás e guapuruvus floridos.

A partir da segunda edição da feira, foram realizadas sessões de autógrafos. Até então, os autores não consideravam de bom tom promover seus próprios livros. Na terceira edição, passaram a ser vendidas coleções pelo sistema de crediário. Nos anos 70, a feira assumiu status de festa popular, com o início da programação cultural. A partir de 1980, foi admitida a venda de livros usados.

Na década de 90, com a grande repercussão na mídia regional e nacional em virtude de sua contínua qualificação e crescimento, a feira conquistou grandes patrocinadores, estimulados pelas leis nacional e estadual de Incentivo à Cultura.

A infra-estrutura foi ampliada e modernizada, os eventos culturais se consolidaram e a feira passou a receber, com desenvoltura, em suas alamedas, grandes nomes do mercado editorial brasileiro e internacional.

Após mais de quatro décadas, a feira continua a ser um local de encontro da cidade com o livro, um ponto de convergência de toda a vida cultural do Estado.