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Borges, Graham Greene, Ortega y Gasset & eu

  • Por Jornalista Externo

Provavelmente, o leitor que me está dando a honra da sua leitura, há de ter perguntado, a si ou aos seus botões: o que será que está fazendo, no título, um pigmeu ao lado de três gigantes? Como diria o presidente Jânio, “in ilo tempore”, explicar-me-ei em seguida.

Ninguém ousaria negar que, entre os muitos escritores injustiçados pelo júri da Academia sueca que, anualmente, desde o ano de 1900, vem tomando a decisão de indicar o ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, por certo se encontram Jorge Luís Borges e Graham Greene.

Não pode haver a menor dúvida de que tanto o argentino, alto poeta, contista e ensaísta, autor, entre outros livros, de A história universal da infâmia, El Aleph e Ficções, onde o onírico, o fantástico, o alegórico e o metafórico explodem a cada passo, bem como o grande romancista católico inglês, autor de O poder e a glória, O fator humano, A ponte de Brighton, Bela e querida Inglaterra, Nosso homem em Havana e outros mais, tinham todas as condições possíveis e imagináveis para conquistar a famosa láurea. Uma láurea que outros abiscoitaram com menos méritos. Coisas da política – literária. Deixemo-las de lado. São questões menores. Mesquinhas. Despiciendas.

Começo por explicar o motivo determinante da aproximação que faço, no título acima, entre Borges e Greene. Acontece que, há poucos dias, tive o prazer de ler o texto de uma conferência proferida em 1984, na Anglo-american Society, de Londres, em que o conferencista, Graham Greene, falando durante a homenagem que estava sendo prestada a Jorge Luís Borges, diz a certa altura: “Para mim, Borges fala por todos os escritores. Repetidamente encontro nas páginas dos seus livros frases que retratam a minha própria experiência como escritor. Borges chama o ato de escrever de sonho guiado (feliz metáfora, digo eu) e, em certo momento, enfatiza: “Não escrevo para uma minoria seleta, que nada representa para mim, nem para adular essa entidade platônica conhecida pelo nome de – As Massas. Essas duas abstrações, ambas tão caras aos demagogos, não são partes das coisas em que creio”. Essas palavras de Borges fazem com que qualquer escritor se sinta perto dele – como eu próprio me sinto”. Atenção, leitor amigo: temos aí uma citação dentro da citação dentro do… Algo que me faz lembrar das borgeanas “ruínas circulares” e dos “jardins de sendas que se bifurcam”.

Note-se a menção que Borges faz da “entidade platônica”. Ela nos remete incontinenti para um livro que, ao lado de Espanha invertebrada e Meditações do Quixote, integra o antiplano triangular da obra admirável do pensador e prosador exímio que é Ortega y Gasset. Refiro-me ao rico e multifacetado A rebelião das massas, vasto ensaio em que o madrilenho faz uma crítica veemente e certeira à falsa ou ilusória democratização da cultura, um mito que ele vivenciou e que lhe sobreviveu, no tempo e no espaço. Aliás, não estará o mundo contemporâneo assistindo à continuidade desse processo, com roupagem nova e novos matizes? O crescimento impressionante da informática, por exemplo, não seria um dos seus aspectos mais notórios? A própria globalização não é uma nova forma de imperialismo sub-reptício, clandestino, crítico, um novo tipo de massificação por assim dizer planetária? Perguntas, perguntas. Nas quais, de certa forma, estão implícitas as próprias respostas.

Retomando o fio da meada, admito que mesmo sendo eu – como sou – um pigmeu ao lado de gigantes – a tríade pensante retromencionada -, gostaria de subscrever “in totum” as palavras do portenho, que o britânico tão sentidamente invoca. Transparece nelas, qual insígnia ardente, a marca daquela sinceridade congênita que passeia à margem do “fingimento”, da hipocrisia, ou mesmo da demagogia barata – e oca.

Confesso: também eu, calçando as sandálias da franciscana modéstia, crepito que escrevo, antes de mais nada, para mim mesmo. Sou meu primeiro leitor, meu primeiro exegeta, meu primeiro crítico. Se bons ou maus, essa é outra questão. E em segundo lugar escrevo também para os meus amigos. E quem sabe se, num terceiro momento, talvez inconscientemente, eu não escrevo ainda para os meus eventuais desafetos? “Chi lo sa?”

Seja como for, escrever é preciso. Ainda que a pena queime e o ombro doa. Ainda que as teclas da máquina onde se movimentam os dedos, digitantes insones, sejam ferro em brasa. Afinal, o minimar branco, retangular, da página virgem, quer ser atravessado. Deseja ser percorrido. E apela, e convida, e docemente constrante o escriba a fazê-lo.

Sim, o ato de escrever, a liturgia da escrita, é também uma forma peculiar de navegação. E o que é navegar? É ir em busca de terras maravilhosas que se escondem ao longe, além dos escolhos onde as sereias cantam o seu canto hipnótico, além da bruma longínqua – ilhas, Índias, eldorados, pasárgadas? É ir muito além do nevoeiro denso que há dentro de mim: aqui e agora.

Como disse Pessoa, que repetiu Plutarco, que por sua vez citou Pompeu, que talvez tenha ouvido a divisa emblemática da boca de um marinheiro romano, “navigare necesse. Navegar é preciso. Por isso navego.

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