Existente desde 1994, o festival Santiago a Mil, na capital chilena, teve uma carreira ascendente. Em 21 anos de história, o evento levou mais de mil espetáculos nacionais e internacionais às 15 regiões do país, atraindo um público de mais de oito milhões de pessoas. Com alianças internacionais, a curadoria do evento observa, também, a cena teatral brasileira – no ano passado, por exemplo, a Companhia Hiato integrou a programação com três espetáculos. No próximo mês de janeiro, é a vez do Teatro da Vertigem.

Em 2012, o grupo estreou Bom Retiro 958 Metros. A montagem, certamente uma das mais ousadas da temporada, abordava questões como consumismo e a escravidão na indústria têxtil. Para isso, circulava por ruas do bairro homônimo, usando como cenário uma galeria, um teatro abandonado e as próprias ruas. A empreitada chamou a atenção da equipe do festival chileno, que convidou o Vertigem para criar uma versão andina da montagem.

O bairro que abrigará o circuito é o Patronato. Próximo à região central de Santiago, o perímetro tem características parecidas com o paulistano Bom Retiro. “É um bairro têxtil, é para lá que as pessoas vão para comprar roupa mais barata”, diz Antônio Araújo, que dirige a montagem em parceria com Eliana Monteiro. “Além disso, há um movimento mais recente de imigração coreana.” Os movimentos migratórios, no entanto, também configuram diferenças. Enquanto em São Paulo a região foi formada por italianos e judeus, Santiago recebeu uma grande comunidade palestina.

Ao lado do iluminador Guilherme Bonfanti e da cenógrafa Laura Vinci, Araújo fez uma visita técnica à cidade há cerca de duas semanas. Na ocasião, o trio passou por quase todas as ruas, analisando as possibilidades de adaptação da peça. Da equipe do Santiago a Mil, eles receberam um livro e uma tese de doutorado sobre a história do bairro.

O espetáculo, que vai se chamar Patronato XXX Metros (ainda é preciso medir a extensão do percurso), segue a mesma ideia do irmão brasileiro. O público se encontra em um local e, partindo de lá, faz um passeio pelo bairro. Como a adaptação ainda está em curso, os detalhes não estão definidos. Há, no entanto, duas opções preliminares de trajeto (veja mapa acima). Segundo Araújo, serão necessárias algumas mudanças na temática da peça. A questão migratória, por exemplo, pode ficar mais evidente, enquanto a abordagem à escravidão fica comprometida porque, diferentemente do Bom Retiro, o Patronato não teria a exploração de uma comunidade específica.

Assim como em São Paulo, um teatro abandonado foi encontrado na região. No entanto, não foi possível utilizá-lo. A saída vai ser a ocupação de um antigo teatro que, hoje reformado, abriga uma boate em funcionamento.

Enquanto não chega a hora de ir para o Chile, o Vertigem discute a adaptação na programação de despedida do ‘É Logo Ali’ – pelo qual o Sesc Ipiranga passou a ocupar um casarão vizinho, à espera do fim da obra parcial da sede. A partir desta terça-feira, 7, o público interessado participa de encontros nos quais serão discutidas as relações entre o Bom Retiro e o Patronato. Nos dias 15 e 16, o grupo abre o processo para o público geral, mostrando o trabalho obtido das reuniões. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.