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‘Azul É a Cor Mais Quente’ estreia hoje

Em Paris, logo após Cannes, Léa Seydoux desabafou, numa entrevista durante os Encontros do Cinema Francês – estava irritada com a discussão sobre as cenas de sexo de “La Vie d’Adèle Chapitres 1 et 2”. Em São Paulo, Adèle Exarchopoulos, a própria Adèle – e o filme agora se chama “Azul É a Cor Mais Quente”, como a HQ de Julie Maroh em que Abdellatif Kechiche remotamente se baseou -, disse que não estava irritada, mas cansada dessa discussão sobre sexo. “O filme é muito rico e as pessoas só querem saber se gozei de verdade com Léa. Estávamos representando. E, apesar do nome, não sou Adèle.”

Kechiche e Adèle estiveram na cidade, a convite da distribuidora Imovision, para antecipar o lançamento de “Azul É a Cor Mais Quente”. Kechiche é o diretor de “A Esquiva”, “O Segredo do Grão”, “Vênus Negra e agora “Azul”. O filme não é só bom. Perdeu o bonde da história quem o saudar com tanta parcimônia. “Azul” já é aquilo que os franceses chamam de data na história do cinema.

Em “O Segredo do Grão”, Kechiche abordou a corruptela do francês clássico pelo linguajar chulo das ruas. Em “Vênus Negra”, filmou a escrava que virou atração de feiras populares, projetando seu olhar sobre o do público que a consumia e degradava. “Azul” faz a síntese dos dois movimentos. É um filme sobre a descoberta da linguagem do corpo por uma garota que vive a experiência do amor e do sexo com outra mulher. E é um filme sobre o voyeurismo – o olhar do diretor sobre o olhar do público que consome essas duas mulheres jovens e belas.

“Continue gostando de sua interpretação, só não me pergunte por que sou atraído por esses temas. Não me interessa racionalizar o que faz parte do mistério da criação.”

O repórter lembra o vendaval de críticas que se abateu sobre ele. Ao mesmo tempo em que reconhecia a extraordinária qualidade do filme – que recebeu, por unanimidade, a Palma de Ouro do júri presidido por Steven Spielberg -, a imprensa francesa foi dura com Kechiche. Acusou-o de abusar das atrizes e dos técnicos. Ele se defende. Brada que não é autoritário.

Pegando carona numa conversa com Thiago Stivaletti, o repórter de novo faz sua interpretação. Kechiche representa a França do Magreb. Enquanto ele filmava sua “Vênus Negra”, a França branca não se sentia ameaçada, mas agora é diferente. Quem ele desnuda e coloca em cenas ardentes é a princesa da rede Gaumont, Léa Seydoux, filha e neta de CEOs da maior empresa de cinema da França. “Ne touchez pas la femme blanche”, advertia Marco Ferreri em seu western contemporâneo, rodado nas ruas de Paris, nos anos 1970. Kechiche – um árabe! – não só toca como profana a femme blanche, que tal? “Prossiga, eu realmente estou achando interessante. Nunca me situei numa perspectiva colonial em relação à França. Meu foco é social, baseado na exclusão do Magreb. Talvez seja preciso um olhar de fora para perceber as implicações do filme.”

Nunca foi sua intenção adaptar a HQ de Julie Maroh. Até o fim ele não sabia se ia matar Adèle, como no livro (e ela tem outro nome, por sinal). “Praticamente, só o que me interessou foi o acaso desse encontro que vai mudar a vida das duas mulheres.”

Ao escrever o roteiro – retomando, parcialmente, uma velha história que o perseguia, sobre a amizade de duas mulheres que mudam seu destino -, Kechiche sabia que o roteiro, em si, deveria ficar o mais aberto possível para a experiência do set, que era o que lhe interessava. Como criar essas personagens, essas cenas, com suas atrizes? Levando-as ao limite. O filme, segundo ele, não é sobre homossexualidade, mas sobre um amor radical. O repórter provoca – diz que o diretor é um voyeur e tem prazer filmando as mulheres. Não filmaria cenas dessa intensidade com dois homens. Kechiche reage – diz que quer fazer “A Vida de Adèle 3 e 4” porque terá uma cena de sexo entre Adèle e dois homens, e será bem gráfica. Dois homens, mas com uma mulher para disfarçar. Ele aperta a mão do repórter. Aceita o desafio. “Aguarde”, promete.

O mais perturbador é o desfecho, a exposição, quando o garoto, fascinado por Adèle, a persegue. Kechiche cria um suspense infernal. O que representa isso – a possibilidade de outra experiência, hétero, que contradiga tudo o que veio antes? Para o diretor, é de novo o acaso, como o que lança Adèle nos braços de Léa. Ele não sabe aonde a caçada irá chegar, talvez a lugar nenhum, mas admite que teve, ao filmar, a mesma perturbação do repórter ao ver as imagens.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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