Mais do que um grande nome da arte quadrinizada brasileira, Eugênio Colonnese é um marco ? como bem disse o jornalista e ilustrador Franco de Rosa, hoje um dos diretores da Editora Opera Graphica. Efetivamente, com a chegada do italiano Colonnese, em 1964, o desenho dos quadrinhos no Brasil mudou, foi inteiramente reestruturado e ganhou novo brilho. Até então, como também assinalou de Rosa, os artistas nacionais seguiam, em regra, a escola de Alex Raymond, o genial criador de Flash Gordon. Depois de Colonnese, passaram a prevalecer os ensinamentos caniffianos (de Milton Caniff, de Terry e os Piratas).

Eugênio Colonnese trouxe para os quadrinhos a ação, super-heróis robustos e, sobretudo, belas e voluptuosas mulheres. No Brasil, ninguém como ele pintou tão bem a plástica feminina, em gibis em preto-e-branco que se tornaram inesquecíveis. A partir da deliciosa Mirza, a Mulher Vampiro, precursora de Vampirella, de James Warren e Frank Frazetta.

Durante os anos 60, quando era enorme a popularidade das revistas de terror no país, o editor José Sidekerskis (Jotaesse) pediu a Colonnese que criasse um novo personagem, para um novo título de vampiros. Assim nasceu Mirza (1967), com roteiro de Luís Meri (Quevedo), em uma história de 10 páginas, hoje considerada clássica. Era uma vampira diferente: durante o dia, circulava tranqüilamente, como uma condessa viúva, rica e excêntrica; à noite, assumia a sua postura vampiresca, mas com alguns sinais de humanidade…

Um ítalo-brasileiro

Pouca gente sabe que, embora nascido na Itália (em Fuscaldo, província de Cosenza), Eugênio Colonnese é filho de mãe brasileira e veio ao Brasil, pela primeira vez, com dois anos de idade. Depois, após breve passagem pelo Uruguai, foi para a Argentina, onde o pai se estabeleceu com a família.

Muito cedo ele passou a interessar-se pelo desenho e as suas primeiras “artes” foram feitas em folhas de papel de embrulho de uma padaria vizinha a sua casa. Eram quadrinizações de personagens dos seriados dominicais do cinema de seu bairro. Em 1948, ganhou uma medalha de ouro pelo primeiro lugar num concurso de historietas no Clube Social de La Boca. Um ano depois, já estava na revista El Tony, da Editora Columba.

Em 1955, de férias no Brasil, conheceu, em São Paulo, o ilustrador e editor Jayme Cortez. Impressionado com a qualidade dos desenhos de Colonnese, Cortez recomendou-o ao pioneiro Adolfo Aizen, da Ebal, que logo lhe encomendou uma adaptação do poema Navio Negreiro, de Castro Alves. A histórica quadrinização foi publicada em 1957 na revista Álbum Gigante. Mas somente nove anos depois é que o artista viria a se transferir definitivamente para nosso país.

Entre nós, começou produzindo quadrinhos de romance para a Editormex. Em seguida, passou a colaborar com as mais diferentes editoras do país: Outubro, GEP, Jotaesse, Graúna, Prelúdio e Saber. Quando a febre dos super-heróis tomou conta das bancas brasileiras, Colonnese, juntamente com Gedeone Malagola, deu vida a uma variada gama de aventureiros mascarados, bem ao estilo dos comics norte-americanos: Superargo, Mylar, Homem-Mistério, X-Man, etc. Mirza veio em seguida.

Em 1970, ilustrou para Adolfo Aizen edição especial de Epopéia, comemorativa ao Jubileu de Prata da Ebal: Comando Geral, em que os principais super-heróis e personagens da editora fazem uma visita à casa e ali são recepcionados pelo velho diretor, que rememora a aventura dos quadrinhos no Brasil.

Eugênio Colonnese, no entanto, já se confessava decepcionado com os rumos tomados pelos quadrinhos nacionais. Por isso, decidiu afastar-se dos gibis e assumir a direção de arte da Editora Saraiva, onde procurou implantar a linguagem dos quadrinhos em livros didáticos. Depois, transferiu-se para a Editora Ática. Desde então, a produção do artista se tornou esparsa, mais para atender a pedidos de amigos.

Curvas e recheio

Em 2002, Colonnese aceita o convite de Franco de Rosa e ressuscita a sensual vampira Mirza, em duas histórias inéditas, com roteiros do próprio Franco de Rosa e de Osvaldo Talo, em um caprichado álbum lançado pela Opera Graphica e ainda à disposição dos interessados nos pontos de venda do HQ Club (em Curitiba, na Itiban Comic Shop, da Av. Silva Jardim).

Para a Coleção Opera Arte, da mesma editora, Colonnese produziu outra preciosidade: A Arte Exuberante de Desenhar Mulheres. Nesse terreno ele continua um craque insuperável. Louras, morenas, heroínas, vilãs, tímidas e atrevidas. Todas, porém, muito belas e sedutoras, repletas de formas e curvas. Só não gosta quem não é do ramo.

“Exuberantes!”. De fato, não há adjetivo melhor para descrever as “musas gráficas” de Eugênio Colonnese. Confira.

Velta: Da Paraíba para o Brasil

Nenhuma referência às gostosas dos gibis nacionais pode ser feita sem que se inclua a voluptosa Velta, considerada a musa dos quadrinhos Independentes. Criou-a o paraibano Emir Ribeiro, então com apenas 15 anos de idade e o surpreendente é era publicada em um jornal escolar.

Explica-se: o esperto menino Emir encaminhava um material mais ameno para análise da comissão de professores, que então fazia o papel de censor. Depois de aprovado, o material era substituído por outro mais audacioso.

– Na verdade, eu contava com a cumplicidade dos outros alunos – confessa o autor.

Depois, Emir Ribeiro levou Velta para um tablóide diário financiado pelo governo. A única reclamação aconteceu quando a heroína abaixou a calcinha para um bandido… Mas foi só. Vale registrar que, na época, nem as revistas masculinas, estampavam o sexo feminino em toda a sua glória. E, para os que não sabem, deve-se registrar que Velta, uma gigante de nádegas imensas e cabelos compridos, costumava mostrar os seios em escandalosos decotes e o bumbum em precursores “fio-dentais”…

Maiores detalhes da poderosa loura estão presentes na Coleção Opera Brasil, da Editora Opera Graphica, com a aventura “O Devorador”, original de 1974, adaptada por Emir Ribeiro (também disponível na Itiban). Não seja louco de perder! (CHG)