No confronto com a política, Hollywood preferiu a arte do ilusionismo. Foi essa a mensagem passada pela Academia de Artes Cinematográficas na festa da entrega do Oscar, que terminou na madrugada de ontem, em Los Angeles. As vitórias de Argo (melhor filme e roteiro adaptado) e As Aventuras de Pi (direção, além de uma série de prêmios técnicos) comprovam que a meca do cinema ainda aposta em suas próprias forças, baseadas na técnica e na magia.

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O recado também foi passado a Steven Spielberg, um dos responsáveis pela consolidação da indústria da ilusão e que, com sua biografia portentosa de Lincoln, ficou apenas com a previsível estatueta para Daniel Day-Lewis como ator; e principalmente a Kathryn Bigelow, cujo longa A Hora Mais Escura e sua trama incômoda foi ignorado pela Academia.

“Eu queria trabalhar com esses caras (os também produtores Grant Heslov e George Clooney) e eles me convenceram a dirigir esse roteiro”, comentou Ben Affleck, na entrevista coletiva depois da cerimônia. Argo, em suas mãos, mais que um relato político, ressalta a força da ilusão hollywoodiana ao contar a história do mirabolante resgate de cidadãos americanos do Irã, em 1979.

Ainda que fiel ao livro que inspirou a trama, Affleck reconheceu que foi preciso tomar liberdades criativas. “Quando se faz um filme histórico, naturalmente é necessário que se façam escolhas criativas a fim de condensar a trama em uma estrutura de três atos. Não é uma coisa fácil de se fazer. Procurei honrar a verdade da essência, o tipo de verdade fundamental que marca a narrativa.”

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Ao final, porém, os protagonistas do filme tendem mais para os artistas do cinema, interpretados por John Goodman e Alan Arkin, que propriamente os agentes da CIA responsáveis pelo resgate.

“O desafio era não desrespeitar a real experiência vivida pelas pessoas que viviam como reféns na embaixada canadense”, afirmou o roteirista Chris Terrio. “Acredito que o ponto de equilíbrio é o personagem John Chambers, vivido por Goodman: enquanto criava as máscaras para o filme O Planeta dos Macacos, ele também fazia os disfarces que a CIA usava em suas infiltrações. Graças a ele, tivemos dois tons no filme e, de uma certa forma, isso me deu permissão para usar um diálogo cáustico, irônico, bem-humorado.”

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Os desafios de Ang Lee, em As Aventuras de Pi, foram distintos. “Foi um milagre ter realizado esse filme”, observou. “É um livro filosófico, que implicava uma produção cara. Ou seja, a pior combinação possível.”

A solução encontrada foi realizar o filme em 3D, o que poderia assegurar um sucesso na bilheteria. Lee, porém, tinha outro objetivo para a técnica. “Para mim, filmes assim são uma grande arte visual, não é apenas um elaborado trabalho de computação gráfica”, comentou. “Minha grande inspiração continua sendo 2001: Uma Odisseia no Espaço. É pura experiência visual, uma viagem visceral e psicológica. É aí que está a essência do cinema.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.