“Está chovendo no paraíso”, anunciou Chlöe Grace Moretz, um tanto desanimada, olhando para a janela do hotel de cinco estrelas em Cancún, no Mexico. “Mas, ainda assim, é um paraíso.” A tempestade tropical se joga contra as janelas próximas e cria um ruído incômodo responsável por roubar a atenção da atriz por alguns segundos, antes de ela voltar a vestir o sorriso no rosto e perguntar aos jornalistas à sua volta: “Então, vamos lá, como estão todos?”

Não é mais um ambiente intimidante para a garota então com 18 anos – ela completou 19 no último dia 10 de fevereiro. Não mais, pelo menos. Chloë vive a rotina de filmagens e maratona de divulgação e tapetes vermelhos há tempos. Atua desde os 7 anos, mas foi colocada diante dos holofotes há pelo menos seis anos, quando estrelou filmes como Kick-Ass e Deixe-me Entrar, lançados em 2010. Depois disso, a caminhada dela a levou até a posição de protagonista da própria franquia teen com A 5ª Onda, filme já em cartaz no Brasil, e ao paraíso chuvoso escolhido para encontrar integrantes da imprensa de todos os cantos do planeta.

Atriz das mais promissoras da sua geração, ela é bombardeada por roteiros todos os meses. Os papéis são jogados aos seus pés. São, em média, seis filmes oferecidos por mês, conta ela. “Minha mãe, meu irmão mais velho e meu empresário leem as histórias e me entregam aquelas que eles consideram mais interessantes”, revela. “Mas é um ótimo momento para ser uma jovem atriz”, continua Chlöe. “Quero dizer, se eu tivesse essa idade alguns anos antes, cinco ou dez, não haveria tantos papéis interessantes para mim.”

A 5ª Onda se encaixa perfeitamente nesse novo cenário para jovens atrizes em Hollywood, inaugurado pelo massivo sucesso da franquia Jogos Vorazes, protagonizada por Jennifer Lawrence, e mostrando ao universo costumeiramente machista dos bastidores do cinemão que é, sim, possível ter garotas à frente de filmes de sucesso comercial. “Alguns anos atrás, eu seria quem em um filme assim? Interpretaria a filha. A amante? Esses papéis de personagens femininos poderosos são extremamente divertidos.”

Ela continua: “Entendo que a sociedade mudou. As mulheres agora têm a oportunidade de ter voz e de serem ouvidas. Como sempre deveria ter sido. Agora, há a oportunidade para que a gente possa interpretar aquilo que realmente somos, em vez de engolir e aceitar o que diziam que as mulheres deveriam ser”.

Chlöe interpreta Cassie Sullivan nesta ficção cientifica na qual aliens estão em plena invasão da Terra. Os extraterrestres enviam ondas de diferentes ataques, interrompem as transmissões de internet, energia, coisas assim, até o ataque final, que dizimará aqueles que restaram no planeta. Cassie representa a resistência, a vontade da humanidade de sobreviver e lutar pelo o que lhe é certo. Não é, como a protagonista de Jogos Vorazes, a escolhida, a salvadora da humanidade. Vive o protagonismo em seu foco familiar, na busca de resgatar o irmão. É curioso, mas o motivo pelo qual a atriz decidiu embarcar nesse projeto é porque ele é, aos seus olhos, “bastante realista”. “Vi, nesse filme, personagens com grande espírito de humanidade. Eles têm uma honestidade muito grande. Sim, é claro, os aliens estão invadindo a Terra, mas a história é focada na família, em emoções reais”, ela explica. “De certa forma, o que essa invasão mostra é que nós, a sociedade contemporânea, estamos perdendo a própria humanidade. Isso está escapando da gente pelas mídias sociais. Estamos perdendo aquele fogo que há dentro da gente, aquele senso de luta, a noção do que é realmente importante.”

Estar diante das câmeras desde muito nova trouxe uma maturidade muito grande no discurso de Chlöe e na sua visão do mundo. A jovem parecia mais velha do que os 13 anos que apresentava em Kick-Ass, por exemplo. “Sim, as pessoas acham que eu tenho 32 anos”, ela brinca. “Às vezes, as pessoas me perguntam: ‘E aí, você vai para alguma festa ou bar hoje?’ E eu respondo: ‘Não, eu tenho 18 anos (nos Estados Unidos, a idade para entrar em bares e consumir bebida alcoólica é 21 anos). Vou voltar para casa com a minha mãe e ficar por lá’.” Ela também passou por situações mais duras, contudo. “Homens têm me olhado diferente desde que eu tenho 14 anos de idade. Achavam que eu tinha 20. E precisei aprender a lidar com isso. Sabe, isso foi um momento difícil para mim e para a minha família. Agora, aos 18 anos, posso falar diretamente com essas meninas que passam pelo mesmo o que eu.”

Ter a família por perto, explica Chlöe, a ajudou a manter a sanidade em Hollywood. “Sabe, sou a mais nova da família, tenho quatro irmãos mais velhos. Então, pude ver muita coisa mesmo sendo muito nova. Pude adquirir experiência observando o que eles faziam de certo ou de errado”, conta. A mãe da atriz é presença constante nas filmagens e entrevistas. “Se não fosse por eles (família), eu não sei onde eu estaria hoje. Eu sei que tenho uma boa cabeça, mas as pessoas encontram muitas tentações nesse meio. Especialmente quando se tem muito poder nas mãos. Aos 12 anos, já estava em um set de filmagem com pessoas me bajulando, perguntando se eu quero isso ou aquilo. Minha mãe estava sempre do lado, dizendo: ‘Não, se ela quiser, ela vai até a mesa e pega, como todo mundo’. Isso foi importante.” Chlöe discursa com o rosto sério, testa franzida, mas se permite, às vezes, descontrair um pouquinho. “Ao mesmo tempo que tenho essa maturidade, estou dublando músicas da Katy Perry. Sendo uma completa idiota. Sabe, eu sou meio esquisita. Sou uma criança. Gosto de pensar que sou mais adulta do que gostaria, mas sou muito infantil também.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.