Terça-feira, 27 de março, foi um dia para entrar para a história da Cinemateca de Curitiba. Assim que acabou a exibição de O pagador de promessas (1962), vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1962, o público começou a levantar, não para ir embora, mas para aplaudir de pé o diretor de um dos mais importantes filmes brasileiros de todos os tempos. Os aplausos continuaram por mais alguns minutos enquanto Anselmo Duarte (foto) ajeitava-se na cadeira para iniciar o Ciclo de Debates 2006 da Fundação Cultural de Curitiba. Aliás, quase não houve debate, o que foi melhor ainda. Anselmo Duarte emocionou-se e empolgou-se, desandou a falar e, do alto de seus 85 anos, resgatou histórias mágicas da época em que filmou O pagador de promessas. Anselmo encantou o público, que preferiu mais ouvir do que perguntar, numa noite histórica na Cinemateca. Veja os principais trechos da conversa com Anselmo:

De galã a diretor

Eu comecei a me indispor com os diretores dos filmes que atuava. Não concordava com o tipo de interpretação que queriam que eu fizesse e nem com a direção dos filmes. Para ser sincero, achava-os muito ruins. A partir de um momento passei a brigar com todos os diretores. Decidi que para fazer o cinema do modo que eu queria, eu mesmo teria que dirigir. Assim virei diretor. Alguns acharam uma prepotência de minha parte. Mas eu não queria fazer filmes melhores ou piores do que os deles, queria era fazer do modo que eu considera certo. Acho que tinha razão, pois ganhei a Palma de Ouro.

Atuação natural

Para mim, a atuação no cinema tem que ser natural. Os diretores da época, e até de hoje, aceitam uma atuação muito teatral, artificial. Aí não é uma atuação do ator, e sim do diretor. Eu sempre orientei meus atores para que agissem com naturalidade, com emoções sinceras.

Indústria cultural

Alguns produtores só pensam na bilheteria, induzem os diretores a fazer um filme estritamente comercial. Eles prestam um desserviço ao cinema. O importante é a arte do cinema. Se o filme for realmente bom, vai dar lucro automaticamente. Eu nunca me submeti a essa pressão dos produtores e da indústria cultural.

Contador de histórias

Eu também fui roteirista, porque sou um contador de histórias. E mudo a história a cada dia, porque acho, contar sempre a mesma história e também porque cada vez que a mudo, eu a aperfeiçôo. Assim, meus roteiros também iam sendo mudados bastante. Quando começava a filmar, a história já era outra completamente diferente.

Candomblé no Pagador de promessas

Quando desalojamos moradores de casas próximas à igreja, uma moradora não queria ficar no hotel durante as filmagens. Mandaram eu falar com a filha dela, dona Elza. Aconteceu que dona Elza era do candomblé e recebia Yansan, a rainha dos ventos. E Yansan era personagem no meu filme. Eu falei a dona Elza que queria mostrar ao mundo que Yansan era equivalente à Santa Bárbara da Igreja Católica. Ela, incorporada como Yansan, disse para eu voltar para a casa que a mãe de Elza já estava saindo. E que se eu precisasse de mais alguma coisa, era só pedir.

Yansan garante o sol para filmagens

Antes de começar as filmagens, eu voltei a falar com Yansan. Disse que precisaria de sol durante uns dois meses, e ela garantiu que assim seria. Alguns dias depois, uma nuvem apareceu e eu voltei a falar com dona Elza. Yansan afastou a nuvem. Só que depois eu precisei de dia nublado para filmar cenas da madrugada. Pediu para Yansan trazer a nuvenzinha de volta, e ela trouxe. Não estou dizendo que vocês têm que acreditar no candomblé por causa disto, mas que aconteceu, aconteceu.

Briga com figurantes

Lidar com figurantes não é fácil. Tinha dia que havia quase dois mil deles no set. Alguns não se comportavam e não cumpriam as ordens. Eu entrava no tapa. Eu era bom no judô, pegava um figurante insubordinado e dava umas torcidas no braço dele, entregando-o para a polícia. Aí gritava: alguém mais aí quer reclamar? Cinema no Brasil é assim, não é fácil. Não é como nos Estados Unidos, onde tem figurante profissional.

Indenização

Depois das cenas de luta de O pagador de promessas, nós indenizávamos quem se machucava ou rasgava a roupa. Era uma fila imensa de gente pedindo dinheiro ou roupa nova. Tinha os malandros que colocavam um terno bem velho apertado, só para rasgar e ganhar um novo. Tinha gente que vinha com dente na mão, dizendo que caiu na briga. Mas eu olhava na boca do cara e ele não tinha dente algum. Havia um que trouxe dente de cachorro dizendo que era dele. Eu só falava: dá um terno Tropical para esse, dá uma dentadura para aquele.

Rumo a Cannes

Antes de ir para Cannes pedi ajuda à Yansan. Ela me deu um saco com um pozinho, que era para eu jogar nas costas dos diretores concorrentes. Eu circulava em Cannes, cumprimentava todo mundo, perguntava o nome, e quando a pessoa virava as costas, dá-lhe pozinho. Se funcionou, não sei, mas ganhei o prêmio.

Crítica

Quando voltei com o prêmio, um crítico no Rio sugeriu que eu havia ?cantado? uma jurada. Eu era galã, tinha mulher no júri, ele queria dizer que isso tinha facilitado minha vitória. Aqui no Brasil é assim, você ganha e ainda tem gente que não acredita que você mereceu. Eu ainda tinha um pouco do pó de Yansan, quando o crítico virou as costas, joguei nele.

Copa do mundo

Quando cheguei em São Paulo com a Palma de Ouro, o carro de bombeiros me esperava para desfilar pela cidade. Foi engraçado. Eu no carro, com o troféu na mão e o povo nas ruas não entendendo nada, ninguém sabia o que era Cannes. Achavam que era alguma conquista no futebol. Tinha gente que perguntava: quanto foi? Eu só dizia, três a zero, seis a zero.