Não, a culpa não foi de Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1, e o seu avassalador projeto de lançamento, chegando a 1,3 mil salas do território nacional no fim de semana de lançamento, em novembro deste ano. Se no Brasil existem cerca de 2,8 mil telas, segundo a Agência Nacional do Cinema (Ancine), a terceira e penúltima parte da aventura de Katniss Everdeen, interpretada por Jennifer Lawrence, ocupou 46,4% do total. O número, contudo, assustou. E a discussão sobre uma forma de autorregular os grandes lançamentos, antes restrita à câmara técnica formada pela Ancine e profissionais do mercado, ganhou forma. Nesta segunda, 15, a agência e as partes interessadas (produtores, distribuidores e exibidores) assinaram um relatório com as resoluções técnicas e, também, sobre a maior questão envolvida: como lidar com os lançamentos vorazes de blockbusters com o mínimo de derramamento de sangue, ou seja, sem grandes prejuízos.

“Veja bem, não somos contra os grandes lançamentos”, pondera Manoel Rangel, diretor-presidente da entidade reguladora desde 2007. “A agência entende que os grandes lançamentos são bem-vindos. Assim como a câmara técnica. O que não é bem-vindo é o megalançamento. É aquele que não otimiza o circuito. Eles utilizam apenas o ‘filé mignon’, ou seja, nem sequer atendem um conjunto de exibidores que solicitaram o direito de veicular, exibir determinado filme.”

Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1 foi apenas a ponta do iceberg que surgiu para alertar o mercado. O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos, desde a semana passada em cartaz, também atingiu 1.073 salas ao redor do País. “Nós constatamos que, no decorrer do ano, o maior dos lançamentos ocupou 500 complexos. O Brasil tem 750”, continua Rangel. “Para nós, a questão é a quantidade de salas que podem ser ocupadas por título dentro de um mesmo complexo.”

A medida foi assinada pela câmera técnica instituída pela Ancine com o intuito de criar a discussão do tema entre todas as partes. A medida tomada, com o estabelecimento de um limite no número de telas em cada complexo, caminha para seguir um modelo adotado na França, no qual as produções não podem ultrapassar um teto de 30% das salas de determinado estabelecimento. No Brasil, o número máximo ainda está em discussão e será anunciado “em breve”, segundo Rangel.

O embate entre cinema nacional e os blockbuster, nesta história, se torna uma Guerra Fria sem ataques diretos. Porém, o lado nacional não tem condições de lutar em pé de igualdade pela questão mais básica, a financeira. “Fica difícil (a competição) com a quantidade de dinheiro que os filmes gringos investem em marketing”, avalia Rodrigo Teixeira, da RT Features, produtor de filmes como Heleno, Tim Maia e Alemão. “Se não for criada uma instrução normativa, algo que ajude, o mercado cinematográfico brasileiro vai sofrer muito as consequências”, completou.

O produtor aponta o ano de 2014 como atípico, já que a Copa do Mundo de Futebol, realizada no País, e as eleições presidenciais, ocuparam parte do interesse do público. “A Copa do Mundo matou o interesse por cinema durante 60 dias. As eleições polarizaram o Brasil. Não tinha como competir.”

A questão já existente há tempos foi acentuada pelo ano difícil para o cinema no Brasil. “Há dois anos eu falo da gravidade deste problema”, garante André Sturm, diretor e proprietário do Caixa Belas Artes, tradicional complexo de cinema dedicado à arte, reaberto em julho, após três anos. Ele defende, veementemente, o limite de 30% das telas destinadas a cada filme nos complexos – o principal ponto de desacordo ainda entre distribuidores, exibidores e produtores. “O que o capitalismo propõe é a liberdade de mercado. E não significa poder fazer qualquer coisa, mas, sim, a liberdade para que todos possam fazer”, completa.

Adhemar Oliveira, distribuidor e exibidor do Espaço Itaú de Cinema, divide-se entre os blockbusters no complexo de 10 salas na Pompeia, e o autoral, na rua Augusta, ambos em São Paulo. Com a experiência de 20 anos, ele parece saber a receita. “Ninguém vive de um sabor só. A vida é feita de vários sabores, Como o cinema é vida, ele precisa ter esses sabores todos”, acrescenta.