Os dois últimos americanos em competição, Mary, de Abel Ferrara, e Romance & Cigarettes, de John Turturro, decepcionaram. Chegaram a ser vaiados, mas o que é bastante significativo, pois americanos são idolatrados por aqui. São tratados como alienígenas de uma civilização superior que se dignam a falar aos mortais. Ferrara e Turturro são dois autores de culto, e de sobrenomes italianos, ainda por cima. Mas os apupos mais consistentes da platéia estavam reservados para o primeiro competidor da casa, I Giorni dell’Abandono, de Roberto Faenza, a infeliz história de uma dona de casa, mãe de dois filhos pequenos, que se vê deixada pelo marido.

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Margherita Buy faz Olga, mulher de um engenheiro de uns 40 anos que se manda com uma ninfeta. Faenza (autor de As Páginas da Revolução, com Marcello Mastroianni, adaptado de Antonio Tabucchi), procura mostrar o colapso mental da mulher abandonada e de como ela precisa de tempo e energia para refazer a vida. No entanto, a narrativa é rasa e certas cenas ridículas. Mau prenúncio para a participação italiana na mostra.

Já Abel Ferrara, aparentemente refeito de sua fase mais hermética, resolve estudar o papel da religiosidade no mundo contemporâneo. Há um jornalista cético (Forrest Whitaker, bom) que acompanha a conversão religiosa de uma atriz (Juliette Binoche, num mal papel) e entra em crise quando sua mulher e seu bebê recém-nascido correm perigo de morte. Mary tem momentos de bom cinema, mas nada que lembre aquele cineasta visceral dos primeiros anos. Na coletiva, Ferrara soltou farpas contra Mel Gibson: "O filme dele deveria se chamar A Paixão do Dólar e não A Paixão de Cristo."

Com Turturro, o problema é outro. O projeto de uma comédia musical sobre relações amorosas parece equivocado. Tem lá seus momentos ao esboçar no começo uma postura anárquica e divertida. Mas depois a história volta a um remanso apaziguador que não é digno da sua inspiração inicial.

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Na seção paralela Horizontes, o argentino Fernando Solanas exibiu seu novo documentário social La Dignidad de los Nadies. "Procurei retratar dez pequenas histórias, de gente anônima, histórias de resistência da gente pobre diante da crise argentina", disse. E, de fato, há histórias muito bonitas como a do escritor, transformado em motoqueiro pela crise, que se comove com as "mães da Praça de Maio" e arrisca a pele nas manifestações. Ou do homem que se dedica a alimentar crianças pobres da periferia de Buenos Aires. As histórias se sustentariam bem sozinhas e talvez melhor sem a sobrecarga ideológica da narração em off, do próprio Solanas. Aí vira didatismo.

Está virando uma tradição – a cada ano, Veneza apresenta um filme de grande orçamento, um candidato a blockbuster, filmado nas próprias locações da cidade. Ano passado foi O Mercador de Veneza, adaptação de Shakespeare por Michel Radford e Al Pacino no papel de Shylock. Neste, é uma nova versão de Casanova, dirigida por Lasse Hallström, sueco radicado nos Estados Unidos. É um Casanova "Disney", quer dizer, pudico e para toda a família o que já basta como comentário.

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A suprema "covardia" foi programar no mesmo festival a exibição da cópia restaurada do mais famoso Casanova, o de Federico Fellini. Estalando de nova, a versão de Fellini para a vida do sedutor de Veneza brilhou na tela do Palácio dos Festivais. Ao contrário de Hallström, a Veneza de Fellini não foi filmada em locações, mas totalmente recriada no famoso estúdio 4 de Cinecittà. E o problema é esse: totalmente fake, a Serenissima de Fellini parece mais verdadeira que a cidade real retratada por Lasse Hallström.

Na entrevista estava o ator Donald Sutherland, que viveu o sedutor veneziano na versão de Fellini. Contou casos interessantes: "Queria saber tudo do personagem. Comprei os 12 volumes da sua biografia e me encontrei com Fellini em Parma para falarmos sobre o filme. Quando ele viu os livros no banco de trás do carro, começou a jogá-los pela janela. Me disse que quanto eu menos soubesse do Giacomo Casanova real, melhor faria o que ele, Fellini, havia imaginado."

Sutherland disse também que as primeiras quatro semanas foram duras, porque nunca sabia o que Fellini estava querendo e ele não explicava. "Depois que peguei o jeito foi um paraíso, uma das experiências mais completas de minha vida."

Também estava na mesa o fotógrafo Giuseppe Rotunno: "Fellini não gostava mesmo de explicar nada. Tinha os seus segredos e esperava que seus colaboradores adivinhassem. Ele trabalhava no meio da bagunça, mas era um caos que ele próprio criava, comandava e no qual se sentia em casa. Ai de quem ousasse criar uma bagunça por conta própria."

Rotunno, que coordenou o restauro garantiu ainda que esta cópia de Casanova é exatamente igual àquela concebida pelo diretor. "Não há um fotograma a mais nem a menos. E as cores são exatamente as do filme original."