Eu devia ter meus 8/9 anos. Por volta de l942/43. Minha mãe tinha uma pensão na Praça 19 de Dezembro, esquina com Riachuelo. A coisa mais alegre de nossos fins de semana era a nossa ida, a família em peso (minha avó e o avô, mamãe, meus irmãos e eu, além de algumas das empregadas) aos shows, na Rádio Guairacá, do casal Graciano – a dupla Nhô Belarmino e Nhá Gabriela. Era um humor gostoso, que a família inteira curtia, rindo à beça, entremeado de lindas músicas que seriam eternas na memória de todos nós curitibanos: Passarinho Prisioneiro (primeiro protesto, no Brasil, contra o aprisionamento de pássaros) e Mocinhas da Cidade, uma bonita homenagem a Curitiba que se tornou hit obrigatório nas rádios, festas de igreja e bailes de clubes.

Como vivenciávamos a II Guerra Mundial, esta era talvez a maior diversão dos curitibanos, numa época em que enfrentávamos noites de black-out (as casas às escuras, nem vela podia acender). Como as luzes das ruas também eram desligadas, não se podia sair de casa. Quando havia a chance de ir às rádios, era uma festa familiar.

É claro que havia outras atrações nas próprias rádios, como o Zé Pequeno com seu Regional, as radionovelas com Isis de Oliveira e Sérgio Fraga e muitos artistas admirados na época. Aos domingos, Aluizio Finzetto era também o grande apresentador do Cineac Rádio, que tinha como estrela o astro mirim Bráulio Prado, entre 6 e 10 anos reinou vestido de cowboy. Era a grande atração da época nos cinemas. O programa de Brálio era produzido por seu pai, Benevides Prado e os figurinos eram de sua mãe, dona Ezilda Faria Prado, famosa costureira da época.

Nossa família tinha grande ligação com os Graciano, pois éramos oriundos aqui de perto, mais precisamente de Rio Branco do Sul. Outra atração da época era o circo: Pavilhão Carlos Gomes, com os Irmãos Queirollo, o Chic-Chic com sua cadela Violeta e seu amigo Harris. Neste circo, em outros, em clubes e cinemas, Nhô Belarmino e Nhá Gabriela se apresentavam com grande sucesso.

Esta alegria, Curitiba precisa guardar em sua memória. Foi muito oportuno o monumento da Cruz Machado, especialmente pela escolha de uma rua de boemia, bastante condizente. Mas, é preciso mais, que volta e meia possamos lembrar desse casal de artistas e toda sua família, hoje artisticamente conduzida pelo filho Ivan Graciano e pela neta Juliana, filha de Ivan. Eles fizeram um humor saudável, além de uma música de nível mais elevado que os chamados “sertanejos” de agora. E como pessoas eram amigas e leais. Não iremos esquecê-los jamais.

No próximo dia 13 de novembro, às 22h, no Original Café, em Curitiba, haverá uma apresentação congênere ao trabalho do Nhô Belarmino e Nhá Gabriela.

Nelson Faria

é jornalista.