Autor de telenovela Aguinaldo Silva.

Os habituais inimigos da telenovela, as cassandras que vivem apregoando a inevitável decadência do gênero, dirão que estou advogando em causa própria. Afinal, desde que escrevi minha primeira telenovela, “Partido Alto”, 1984, em parceria com a comendadora Glória Perez – já lá se vão 18 anos e, desde então, escrevi outras nove -, é disso que (muito bem) vivo: de escrevê-las.

Portanto, seria eu o último a apregoar o fim delas. Mas, a verdade – e qualquer um chegará a ela ao se debruçar sobre o assunto isento de paixões – é que o futuro da televisão brasileira ainda está na telenovela.

Eu vos digo isso e vou além: eu provo. Primeiro, por razões de produção, ou seja, econômicas. Na Globo, a novela ocupa quatro horários por dia, cinco se incluirmos “Malhação” nessa conta. O fato de ela se desdobrar por 150, 180, 200 ou mais capítulos permite que seja um produto sempre rentável: não só a novela se paga, como fatalmente, com o decorrer dos capítulos, dará lucro. No caso da novela das oito, lucro suficiente para bancar boa parte do restante da produção.

Agora, digamos que Ciro Gomes fosse eleito e, mercurial como é e furioso porque Patrícia Pillar não foi indicada para protagonista da próxima novela do Gilberto Braga – este só quer saber da Malu! -, assinasse um decreto proibindo a produção de telenovelas no Brasil. Como é que as emissoras, a Globo principalmente, iriam preencher tantos buracos? Com “reality-shows”, por exemplo? Qualquer criatura menos abespinhada já terá percebido que estes, depois de certo tempo, mal se agüentam em pé. Por mais que se tente dar a eles uma estrutura de telenovela, a verdade é que não dá pra esconder: nos BBBs e Casas dos Artistas da vida, as tramas são paupérrimas, os diálogos perdem até para aqueles das novelas mexicanas e as personagens não têm carne. E, muito menos, ossos.

Vamos a um exemplo. Às vésperas do fim do “BBB2”, a grande interrogação, transformada em manchete nos cadernos de TV, era: “Ficarão Manuela e Thyrso juntos depois que o programa terminar?” Essa mesma pergunta foi feita no final do “BBB1”: “Ficarão Vanessa e o franco-angolano juntos depois que o programa terminar?” É claro que eles não ficaram – os dois eram tão chatos que nem mesmo eles poderiam suportar um ao outro. Assim como não foi esclarecida uma dúvida: o rapaz era “franco-angolano”? Que eu saiba, existem “franco-argelinos” ou “luso-angolanos”… Essa mistura das duas coisas só pode ser produto da (pior) ficção.

Assim, por mais que pareçam agora uma novidade – e sirvam para se chegar a uma triste constatação: as pessoas andam se conformando com muito pouco -, os “reality-shows”, como já ficou provado no resto do mundo – a verdade é que eles chegaram aqui com um certo atraso -, tendem a se desvanecer no ar como se fossem uma nuvem de algodão doce. Enquanto isso, as telenovelas estarão lá, firmes, garantindo o lucro da indústria e fazendo a alegria do povo. É fácil constatar, lendo esse artigo, que eu me orgulho demais de escrevê-las. Prometo aos que apreciam o meu trabalho que, enquanto forças tiver, continuarei a fazer isso. E prometo também que nunca insultarei a inteligência deles inventando um personagem – Ai, minha Santa Janete Clair! – “franco-angolano”. Eu, hein?